terça-feira, 28 de junho de 2016

Controlados pela rede


O uso (e sobretudo o abuso) da internet pode estar a alterar a nossa capacidade de assimilar dados e interpretar a realidade. Esta ideia, defendida por um número crescente de cientistas, gerou um debate inflamado.

A poeira inicial foi levantada por Nicholas Carr, um escritor norte-americano interessado no efeito que as tecnologias exercem sobre os seres humanos. Carr publicou, no Verão de 2008, um pequeno e já clássico ensaio intitulado Estará o Google a Tornar-nos Estúpidos?. O argumento que apresenta é, essencialmente, o seguinte: a forma que temos de obter informação através da internet, com a leitura rápida de textos curtos e saltos constantes, é muito diferente da assimilação pausada e continuada no tempo que a leitura de um livro implica, assim como da reflexão que daí resulta. A rede global é um emaranhado de dados em que se torna difícil, se não se estiver preparado, separar o trigo do joio. Pior: está cheia de distracções.

Dado que a nossa mente é o resultado, em grande medida, de experiências pessoais, os internautas terão uma forma de pensar distinta daqueles que obtêm dados pelas vias tradicionais. Em princípio, isso não seria mau nem bom; apenas outro modo, claramente inovador, de ter acesso ao conhecimento. Porém, Carr vislumbra um problema de fundo, que é o do próprio conhecimento: a internet funciona como uma imensa memória global que coloca à nossa disposição todo o tipo de informação a um clique de distância. Todavia, a informação adquirida não implica conhecimento; isto é, ter acesso aos dados ou mesmo utilizá-los não implica assimilar o seu conteúdo.

Em Janeiro de 2009, Patricia Greenfield, uma psicóloga da Universidade da Califórnia, publicou na revista Science um estudo sobre os meios informais de aprendizagem (TV, cinema, rádio, videojogos) que apoiava a hipótese de Carr. Segundo ela, embora essas ferramentas possam apresentar vantagens educativas (por exemplo, no desenvolvimento de capacidades visuoespaciais), “não permitem tempo para reflexão: a única tecnologia da comunicação que o faz é a palavra escrita; a leitura é fundamental para o desenvolvimento de processos cognitivos fundamentais, como o pensamento crítico ou a imaginação”.

Todavia, será que a internet pode mesmo modificar a maneira como pensamos? A nossa mente, o nosso “eu”, é moldada pelas actividades do quotidiano. Na realidade, praticamente qualquer experiência altera, de algum modo, a actividade fisiológica e mesmo a estrutura física do sistema nervoso. No entanto, as mudanças a que Carr se refere são mais profundas: propõe que a utilização da rede global poderá mudar, perceptivelmente, a forma como interpretamos o mundo. A ideia não é descabida: de facto, os usos culturais são susceptíveis de moldar o intelecto de forma muito intensa.

As experiências dos primeiros meses de vida servem para esculpir eficazmente o funcionamento do encéfalo, ou seja, do cérebro, do cerebelo e do tronco encefálico. Por exemplo, as pessoas que passaram esse período em alguns países asiáticos não conseguem distinguir os sons R e L quando se tornam adultas. Não se trata de uma característica genética associada às populações, mas de influência cultural.

Patricia Kuhl, co-directora do Instituto para as Ciências do Cérebro e da Aprendizagem da Universidade de Washington em Seattle, demonstrou que todos os bebés têm, na realidade, capacidade para distinguir qualquer som dos milhares de línguas que existem no mundo. Todavia, o encéfalo adapta-se com rapidez às características de cada cultura, e acaba por perder a faculdade de diferenciar as que não são usadas. A questão é que as línguas não são apenas colecções de sons distintos, mas também diferem nos aspectos simbólicos e estruturais. Por isso, muitos cientistas consideram que o idioma que cada grupo cultural fala contribui para determinar, em certa medida, a sua maneira de pensar.

Por sua vez, a tecnologia pode afectar a mente até níveis insuspeitados. No mundo moderno ocidental, estamos habituados a observar imagens e fotografias, reproduções em duas dimensões do que nos rodeia, mas há culturas em que não existe essa tradição de representar visualmente a realidade. Se uma foto fosse mostrada aos seus membros, não identificariam o que representa. O antropólogo inglês Nigel Barley descreve no livro O Antropólogo Inocente essa inépcia entre os membros de uma tribo dos Camarões: “Os homens não distinguiam a silhueta masculina da feminina. Atribuí o facto, simplemente, à minha falta de jeito para o desenho, até que tentei usar instantâneos de leões e ­leo­par­dos. Os mais idosos ficavam a olhar para as fotos, cujas imagens eram perfeitamente nítidas, viravam-nas para todos os lados e, depois, diziam algo do género: ‘Não conheço este homem’ ”!

Na argumentação sobre a internet e os seus efeitos, Nicholas Carr recorre a outro exemplo curioso da relação entre mente e tecnologia. Quando Friedrich Nietzsche deixou de poder escrever à mão devido a problemas na vista, adquiriu uma máquina de escrever com a qual veio a conseguir trabalhar mesmo de olhos fechados. Influenciado pela mudança, o seu estilo modificou-se e passou a ser mais telegráfico e menos retórico. Como o próprio filósofo admitia, “os aparelhos de escrita têm muito a ver com a formação dos pensamentos”.

Ao longo da história, os seres humanos têm assimilado todo o género de tecnologias. A rejeição inicial devido a eventuais efeitos prejudiciais tem sido bastante comum. A imprensa não foi excepção. O humanista italiano quatrocentista Hieronimo Squarciafico deitava as mãos à cabeça face aos perigos que vislumbrava com a introdução do invento de Gutenberg. “A abundância de livros torna o homem menos estudioso”, dizia. No começo do século XX, o escritor e ensaísta Aldous Huxley retomava a preocupação: “A cultura corre o risco de ser sepultada sob uma avalancha de livros.”

Curiosamente, receava a mesma coisa que se atribui, agora, à internet: excesso de informação e excesso de diversão. Segundo dizia, “o mundo do século XX acarreta uma enorme carga de conhecimento científico, histórico, literário e psicológico, demasiado grande para poder ser absorvido por qualquer indivíduo; esse gigantesco corpo de conhecimento é a causa para algumas mentes serem desviadas por infinitas distracções”.

Apesar disso, não está provado que a utilização da rede global tenha de afectar a nossa capacidade de análise e nos transforme em meros gestores de dados superficiais. Na opinião de Steven Pinker, psicólogo da Universidade de Harvard, as novas tecnologias, longe de nos estupidificar, são de facto a melhor maneira de nos mantermos despertos, pois permitem armazenar e ter acesso à enorme quantidade de informação que a nossa sociedade produz.

Do ponto de vista biológico, Pinker tem, provavelmente, razão. A mente do ser humano não se transforma com facilidade. Os psicólogos evolutivos consideram que as características cognitivas da nossa espécie não mudaram, praticamente, nos últimos 13 mil anos, desde que abandonámos a vida de caçadores-recolectores. Isto é, se pudéssemos trazer para esta época um bebé que tivesse nascido quando foram pintadas as gravuras de Foz Coa, ele cresceria e tornar-se-ia um ser humano moderno, sem se distinguir de qualquer um de nós. Esta ideia torna evidente um facto fundamental quando se trata de interpretar os possíveis efeitos da internet: todas as alterações na plasticidade encefálica que temos referido, desde a identificação de sons à percepção de imagens, não afectam o material genético. Por isso, não teriam repercussões na geração seguinte.

Alguns neurofisiólogos apressaram-se a sugerir que a internet está a produzir uma alteração evolutiva no ser humano, uma hipótese descabida: para a utilização da rede global poder modificar, de alguma forma, a biologia da espécie humana, teriam de verificar-se, pelo menos, duas condições: já deveria existir alguma diferença genética entre as pessoas que usam intensamente a internet e as que não o fazem e, em segundo lugar, essa diferença teria de afectar, de algum modo, as funções reprodutivas dos internautas.

Nos últimos anos, foram publicados diversos estudos sobre as consequências da utilização da Web, sobretudo nos adolescentes. Nesses trabalhos, chama-se a atenção para algumas questões psicológicas e sociais, tanto negativas (dependências, assédio), como positivas (aprendizagem, fomento de relações sociais). No entanto, até agora, quase não existe investigação sobre os possíveis efeitos neurobiológicos. O psicólogo Eyal Ophir e os seus colaboradores da Universidade de Stanford (Estados Unidos) desenvolveram um estudo sobre o assunto: analisaram as faculdades cognitivas de um grupo de estudantes habituados à multitarefa e a trabalhar em contacto com várias fontes de informação, como correio electrónico, motores de busca da internet, televisão, suportes escritos e mensagens SMS.

As conclusões a que chegaram revelaram-se, em certa medida, surpreendentes: os viciados na multitarefa tiveram menor pontuação do que os restantes utilizadores num exercício em que se media a velocidade com que se trocava de trabalho ou função, talvez por se distraírem mais facilmente com qualquer estímulo. Resta saber se essa inclinação para a distracção é a causa ou a consequência do hábito de fazer várias coisas em simultâneo.

Por sua vez, cientistas da Universidade de Tianjin (China) convidaram, em 2008, vários utilizadores intensivos da rede global para se submeterem a um teste de compreensão semântica de caracteres chineses, enquanto um electroencefalógrafo registava o potencial evocado nas suas cabeças (ondas N400). Ao comparar os resultados com os de um grupo de controlo, os neurologistas observaram que os ciberviciados mostravam um potencial N400 de menor amplitude e com maior latência (a onda surgia com antecipação). Qual o significado? Talvez os internautas possuam maior inclinação para o processamento semântico.

Segundo se depreende das experiências, a utilização da tecnologia poderá ter os seus prós e contras, mas, por enquanto, tudo não passa de mera especulação. Por conseguinte, o debate tem vindo essencialmente a centrar-se sobre os alegados efeitos culturais. O certo é que, além de Greenfield e Carr, outros cientistas consideram que a utilização quotidiana da internet modifica substancialmente (e de forma negativa) a nossa maneira de pensar.

Leo Chalupa, neurobiólogo da Universidade da Califórnia, chegou a afirmar: “A Web é a maior detractora do pensamento rigoroso desde a invenção do televisor. O meu conselho é que, se quiser pensar a sério, a melhor coisa a fazer é desligar a internet, o telefone e a TV, e tentar passar 24 horas em absoluta solidão.” A opinião do físico Anthony Aguirre, da mesma instituição, é quase idêntica: “A velocidade com que se obtém informação pela internet é demasiado rápida, deixa pouco espaço e tempo mentais para processar os dados, ajustá-los aos esquemas existentes e tirar conclusões. O brilho da luz impede que dediquemos algum tempo ao fértil mistério obscuro.”

Ao mesmo tempo, outras vozes defendem que as virtudes da Web ultrapassam amplamente os seus inconvenientes. Kevin Kelly, fundador da revista Wired, considera que ela contribui de forma muito importante para incentivar a criatividade, pois permite, entre outras coisas, pensar enquanto se distrai. Na sua opinião, não estamos a perder tempo quando utilizamos a internet, nem a desperdiçar recursos mentais; mantemos a cabeça ocupada com uma actividade contemplativa que pode, em determinado momento, tornar-se produtiva.

Lisa Randall, física da Universidade de Harvard, reconhece que a rede global afecta o grau de profundidade com que se abordam os textos, mas também vê um lado positivo, que acaba por destacar: os jornais online, por exemplo, facilitam o acesso directo aos artigos e secções que mais interessam a determinado indivíduo e, por conseguinte, contribuem para evitar as informações que poderiam distraí-lo.

Outro físico, Max Tegmark, do Instituto Tecnológico do Massachusetts, reconhece que poupa muito tempo com a internet, pois não tem de ir buscar livros e apontamentos científicos às livrarias e bibliotecas; também lhe permite concentrar-se no cerne da investigação, em vez de ter de “reinventar a roda” em cada trabalho. Além disso, sublinha que se tornou difícil uma investigação inédita e potencialmente útil passar despercebida, algo que não era raro acontecer há apenas alguns anos.

Em resumo, a conclusão que podemos extrair do debate é que a internet possui, como todas as tecnologias, as suas virtudes e as suas desvantagens; cada um deverá aprender a retirar o melhor e o que é mais útil da cada suporte. A psicóloga Patricia Greenfield coloca as coisas assim: “Nenhum meio pode proporcionar tudo. Cada um possui os seus pontos fortes e fracos; cada um desenvolve faculdades cognitivas à custa de outras. Do que a mente humana necessita é de uma dieta equilibrada com esses meios de aprendizagem e comunicação.”

Um dos investigadores que melhor resumem os efeitos contraditórios que a utilização da rede global poderá exercer (ou não) sobre o nosso intelecto é Stephen Kosslyn, professor de psicologia na Universidade de Harvard (Estados Unidos). Por um lado, este especialista em neurociência cognitiva afirma que sente falta da reflexão pausada de que usufruía antes da chegada desse furacão que é a internet. Todavia, por outro, considera que a rede veio aumentar a sua capacidade de percepção e análise.

Além disso, Kosslyn vê a rede global como uma extensão da sua própria memória que lhe permite procurar dados com rapidez, enquanto escreve, e extrair a essência do conteúdo. Destaca, igualmente, que se trata de um meio em que se pode efectuar rapidamente aquilo a que chama “um teste de bom-senso”: consiste, fundamentalmente, em confrontar opiniões e reacções emocionais com as de outros. “Integrei a internet no meu processamento mental e emocional e agora penso melhor”, afirma.

George Dyson, especialista em história da ciência, propôs uma sugestiva comparação entre a construção de botes e o modo de acesso ao conhecimento. “No Pacífico Norte, há duas formas de construir embarcações. Os aleutianos vivem em ilhas próximas do mar de Bering onde não existem árvores, pelo que montam o esqueleto dos seus caiaques com fragmentos de madeira interligados. Os tlingit (indígenas que habitam no Noroeste do Canadá), pelo contrario, fabricam as canoas com uma única árvore escolhida entre todas as que existem na floresta, da qual vão retirando pedaços de madeira até só restar a estrutura da embarcação. Os aleutianos e os tlingit obtêm resultados semelhantes – um bom bote com o mínimo de material – através de métodos opostos. A internet produziu uma divisão cultural parecida. Costumávamos ser construtores de caiaques, isto é, reuníamos todos os fragmentos disponíveis de informação para configurar a estrutura que nos mantinha à tona. Agora, temos de aprender a ser fabricantes de canoas, ou seja, saber eliminar os dados desnecessários para o perfil do conhecimento que se oculta no interior se poder revelar. Aqueles que não conseguirem adaptar-se vão acabar a navegar sobre troncos.”


X.M.A. - SUPER 153 - Janeiro 2011
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