sexta-feira, 8 de julho de 2016

História - A serra dos mortos - Megalitismo na Aboboreira

As grandes pedras que serviram para honrar os defuntos no passado remoto permitem-nos hoje conhecer melhor o homem pré-histórico. O Campo Arqueológico da Serra da Aboboreira é uma das maiores necrópoles megalíticas do país e fala-nos sobre a sociedade dos seus construtores.

Perdida entre as vertentes agrestes do Marão e os vales dos rios Tâmega e Douro encontra-se a serra da Aboboreira. Com as suas modestas dimensões, que não vão além de 15 quilómetros de extensão, cerca de 7 km de largura e apenas 971 metros de altitude, está longe de rivalizar com as grandes serras que caracterizam o relevo montanhoso do Norte de Portugal.

Não se destacando pelo tamanho ou tão pouco pela sua riqueza e diversidade naturais, que são todavia dignas de registo, este acanhado terreno acidentado, perdido nos confins do distrito do Porto, ganhou notoriedade pelo seu magnífico património arqueológico: uma extensa necrópole megalítica, das maiores que se conhecem em Portugal. São mais de quarenta túmulos (onde se incluem mamoas, antas e dólmenes), identificados, intervencionados e estudados desde 1978.

O Campo Arqueológico da Serra da Aboboreira (CASA), projecto de investigação, divulgação e valorização do património arqueológico, herdou o seu nome do maciço granítico onde se iniciaram os trabalhos de prospecção, mas, na verdade, estende-se actualmente por uma vasta área que extravasa os limites físicos da Aboboreira e se espalha pelas cumeadas da região até à contígua serra do Castelo. Este, que é um dos mais interessantes arqueosítios portugueses e peninsulares, possui uma invejável colecção de monumentos megalíticos funerários de diferentes épocas, desde o Neolítico (cerca de 4500 a.C.) até à Idade do Bronze (por volta de 1900 a.C.).

De modo a assegurar a adequada compreen­são dos diferentes tipos de monumentos funerários e a sua evolução ao longo dos tempos, o Núcleo de Arqueologia do Museu Municipal de Baião expõe algum do espólio recolhido nas inúmeras campanhas de escavação arqueo­lógica e exibe uma maqueta didáctica, onde 120 figurinhas humanas ilustram as diferentes fases de construção de uma anta (câmara funerária delimitada por uma série de grandes pedras fincadas verticalmente no solo e coberta por uma laje que serve de tampa) e da respectiva mamoa (montículo artificial de terra e/ou pedras que oculta a anta). Uma vez que as mamoas formam geralmente pequenas elevações com a sugestiva forma de mamilo, são também conhecidas popularmente como “mamoelas”, “mamoinhas”, “mamelas”, “mamorras” e “maminhas”.

Construtores habilidosos

Percorrendo a maqueta, os visitantes menos letrados em investigação arqueológica e nos assuntos da pré-história podem inteirar-se das técnicas usadas pelo homem da Idade da Pedra. Torna-se assim mais fácil perceber como foi possível que apenas com a força humana se conseguisse fazer a extracção, o talhe e o transporte de descomunais blocos graníticos, alguns com várias toneladas, utilizados na construção dos megálitos (assim denominados por serem construções com pedras de grandes dimensões).

Acredita-se que as chãs planálticas (amplas superfícies aplanadas) da serra da Aboboreira, actualmente inóspitas e despidas de gente, tenham servido de lar, nos tempos pré-históricos, a um número médio de 140 habitantes por geração. A estimativa, da autoria da arqueó­lo­ga Carla Stockler, resultou da aplicação de fórmulas que permitiram calcular a quantidade de indivíduos implicados na construção de cada um dos quarenta monumentos megalíticos disseminados pela região ao longo de sucessivas gerações. Os seus cálculos apontam para que tenham vivido nesta área geográfica, durante dois milénios, aproximadamente 11.200 indivíduos. Durante esse período, a que terão correspondido cerca de oitenta gerações, construiu-se aqui, a um ritmo impressionante de um monumento por cada duas gerações, uma das maiores e mais importantes necrópoles megalíticas do país.

Todavia, o número de pessoas envolvidas em tais construções tumulares ainda está longe de ser consensual entre os especialistas, que baseiam os seus cálculos e as suas inferências em diferentes índices. A título de exemplo, refira-se, relativamente ao número mínimo de horas de trabalho necessárias para a edificação de um tumulus (designação que corresponde à mamoa), que alguns investigadores usam o índice de 0,3 metros cúbicos de construção por homem e por hora, enquanto outros sugerem 1,67 m3, o que implica forçosamente discrepâncias acentuadas entre os diversos arqueólogos.

Nos megálitos de maiores dimensões, acredita-se que terá sido necessário um esforço coordenado e simultâneo de muitas dezenas de pessoas para transportar e erguer os enormes blocos graníticos que lhes dão forma. No entanto, os arqueólogos também não se entendem no que se refere às pessoas necessárias para deslocar as grandes pedras erguidas em honra dos mortos. Neste caso, as diferenças de opinião parecem advir das técnicas distintas que poderão ter sido usadas pelos edificadores dos monumentos, o que obviamente tem implicações na avaliação do esforço construtivo.

Desde logo, podem antever-se três cenários possíveis para o deslocamento das pedras gigantes: poderão ter sido arrastadas directamente sobre o solo, puxadas sobre “rolos” (troncos) de madeira ou transportadas através de alavancas. No arrasto sem “rolos”, estima-se que seriam necessários 16 homens por cada tonelada de pedra. Se o transporte se fizesse sobre rolos de madeira, esse valor já desceria para apenas seis homens por tonelada. E, se fossem usadas alavancas, alguns estudos provaram que seria possível mover as grandes pedras com apenas duas pessoas por tonelada.

Não havendo certezas absolutas sobre as técnicas usadas na construção dos vários monumentos, vale a pena confrontar os estudos do arqueólogo Vítor Oliveira Jorge (pioneiro na arqueologia social dos sepulcros da serra da Aboboreira), onde as alavancas não foram consideradas, com os do arqueólogo Joel Cleto, do CASA, defensor do uso de alavancas pelos construtores de alguns daqueles megálitos. Considerando o transporte de um esteio (bloco granítico que serve para escorar a enorme pedra de cobertura de uma anta) com 6,24 toneladas, pertencente ao monumento Outeiro de Ante 1, verifica-se que teriam sido necessários cem homens para o arrastar sem rolos de madeira, 36 com o auxílio de “rolos” e apenas 13 se fossem usadas alavancas. Assim, Oliveira Jorge estimou que aos cem homens adultos necessários para o arrastamento do esteio corresponderia uma população global de 450 pessoas, e aos 36 adultos que usavam os “rolos” uma população de 162 indivíduos. Joel Cleto, por seu lado, considera que 56 habitantes seriam suficientes para obter 13 construtores com perícia suficiente para usar as alavancas.

Muito provavelmente, nunca saberemos com absoluta certeza qual a técnica de construção que foi utilizada, havendo até uma grande probabilidade de que tenham sido usadas várias em simultâneo. Contudo, não deixa de ser curiosa a possibilidade de terem sido usadas alavancas. A ser assim, muito antes de Arquimedes (287–212 a.C.) ter enunciado o princípio da alavanca (através da famosa expressão que lhe é atribuída: “dai-me uma alavanca e um ponto de apoio adequado e eu moverei a Terra”), já o homem pré-histórico, sem o saber, aplicava o seu postulado. Afinal, “a habilidade e a inteligência, mais do que a força por si só, terão sido factores fundamentais para mover grandes pesos”, considera Joel Cleto.

O passado remoto “antes da História”, do qual nos chegam apenas alguns indícios soltos que frequentemente não passam de arabescos, continua ofuscado pelo nevoeiro do tempo, apesar dos avanços tecnológicos a que temos assistido nas últimas décadas. No entanto, divergências à parte, todos os arqueólogos partilham a mesma certeza de que estes estudos são muito importantes porque contribuem para uma aproximação hipotética à demografia e à sociedade dos construtores dos megálitos.

Ocupação pré-histórica

É quase certo que nessas épocas remotas o clima era mais ameno e que as chãs da Aboboreira, localizadas a cerca de mil metros de altitude, tivessem condições propícias ao maneio agrícola (considerado um aspecto crucial para a coesão social e para a entreajuda na construção dos megálitos funerários), à exploração dos recursos cinegéticos e à pastorícia. Só assim se compreende a ocupação pré-histórica da serra, cujos primeiros indícios datam de há aproximadamente 7000 anos.

Alguns estudos de paleobotânica (análise de carvões vegetais, frutos, sementes, grãos e pólen) permitiram ainda confirmar que a melhoria climática que se verificou com o fim da última glaciação, há cerca de dez mil anos, poderá ter contribuindo para uma crescente arborização das partes mais altas da serra. Assim, espécies que na actualidade se encontram acantonadas abaixo dos 700 metros (carvalho alvarinho, castanheiro, vidoeiro e aveleira, entre outras) seriam aí relativamente abundantes, fornecendo alimento e lenha e contribuindo para enriquecer a biodiversidade local.

Os vestígios habitacionais das populações que começaram a fixar-se na Aboboreira por volta do quinto milénio a.C. são muito escassos, deixando adivinhar povoados limitados, sem preocupações de defesa, instalados em terrenos húmidos e, a avaliar pelas numerosas partículas de carvão vegetal encontradas sob o solo de algumas mamoas, que utilizariam o fogo para possivelmente abrir clareiras na densa floresta. Embora pouco se saiba do modo como viveram esses povos primitivos, conhece-se relativamente bem a forma como adoraram os seus mortos. Geração após geração, os monumentos funerários foram-se amontoando, tendo sempre como referência as construções megalíticas que os precederam. A proximidade entre as sucessivas inumações parece denotar um grande significado simbólico e ritual atri­buí­do a alguns lugares.

Arquitectura funerária

Por volta do quinto milénio, começaram a construir monumentos sepulcrais de câmaras pequenas e cobertas por montículos de terra (mamoas) de reduzidas dimensões: inferiores a um metro de altura e com menos de dez metros de diâmetro. No decurso do quarto milénio, as tumbas atingiram uma maior monumentalização e destaque na paisagem, com dimensões que ascendiam a 1,5 m de altura e a mais de 15 m de diâmetro. Neste período áureo do megalitismo na serra da Aboboreira, em que foram erguidos os grandes dólmenes, como Chã de Parada (monumento nacional) e Chã do Outeiro de Ante, os sepulcros tornaram-se verdadeiramente colectivos, deixando antever um maior número de indivíduos enterrados e permitindo um enterramento e um ritual mais prolongado no tempo. Os despojos encontrados nesses dólmenes são relativamente escassos e pobres, resumindo-se a micrólitos geométricos, pontas de seta de base triangular e com aletas, de sílex e quartzo hialino, lâminas e lamelas, contas de colar em xisto e variscite e raros fragmentos de vasos lisos. Os objectos votivos, construídos com intentos exclusivamente funerários, resumem-se a enxós, seixos rolados e machados.

Na Idade do Bronze, ter-se-ão reutilizado os antigos sepulcros e ter-se-á edificado, por volta de 2400 a.C., a mamoa de Chã de Carvalhal. Esta correspondeu a uma viragem no ritual funerário, que passou a fazer-se de modo individual. O defunto fazia-se acompanhar de armas em cobre (punhais e pontas de lança de tipo Palmela) e vasos cerâmicos. Seguindo esta tipologia de construção, contrária à visibilidade e monumentalidade que caracterizaram as mamoas megalíticas de épocas anteriores, regista-se ainda, mais recentemente (cerca de 1400 a.C.), a edificação do monumento de Outeiro de Gregos.

No limiar da Idade do Bronze, assiste-se a uma hierarquização e uma diferenciação social, que se evidencia nas próprias tumulações. Como lembra a arqueóloga Carla Stockler, “a partir de agora, são introduzidos no espólio funerário produtos de prestígio, como a cerâmica campaniforme e as armas metálicas, objectos mais individualizadores de uma primeira elite, cuja importância era publicamente manifesta pela posse e uso destes produtos, difíceis de obter ou dispendiosos”.

Janelas para o passado

Aquilo que para o homem comum não passa de um monte de pedras, apelidadas usualmente de antas, dólmenes ou antelas, mas que o folclore nacional também conhece como “arcas”, “arquinhas”, “palas”, “orcas”, “mamoas”, “mamoncelos” ou “pedras dos mouros”, revela-se aos olhos experimentados dos arqueólogos como magníficas janelas para o passado. Se durante décadas esses blocos de pedra pouco ou nada trabalhadas apenas revelavam segredos sobre o culto dos mortos, desde há alguns anos que se têm mostrado igualmente úteis na compreensão do mundo dos vivos, nomeadamente da vida social pré-histórica.

Embora o dia-a-dia dessas sociedades primitivas fosse muito diferente do que acontece actualmente nas sociedades modernas do século XXI, é fascinante pensar que as pessoas (os construtores habilidosos dos monumentos megalíticos) eram anatomicamente iguais a nós. Se fosse possível pegar numa das suas crianças recém-nascidas e criá-la na nossa casa, ela seria indistinguível dos nossos filhos. Por incrível que pareça, falaria como nós, viveria agarrada ao telemóvel e à internet, usaria com mestria as novas tecnologias da informação e comunicação, viajaria de avião e sonharia ser médico, cientista ou futebolista. É que, no Neolítico, quando começaram a construir-se os monumentos megalíticos na Aboboreira, já o Homo sapiens sapiens tinha desenvolvido todas as características que nos fazem o que somos hoje. Os milénios que nos separam não acrescentaram nada de novo à nossa anatomia ou fisiologia, tendo servido apenas para consideráveis avanços culturais, tecnológicos e científicos.

No planalto da Aboboreira, as antas, os dólmenes e as mamoas confundem-se com o caos de blocos e com os afloramentos naturais da paisagem granítica. Não se sabe bem se terá sido esse cenário oferecido aos olhos contemplativos do homem primitivo que o inspirou a ritualizar a paisagem e a implantar aqui os seus monumentos funerários. Mas uma coisa é certa, as nossas raízes mais distantes parecem revelar-se em lugares mágicos como a Aboboreira, uma verdadeira serra dos mortos.

J.N.
SUPER 152 
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