terça-feira, 23 de agosto de 2016

Cientistas propõem projecto para criar genoma humano sintético


Um grupo de 25 cientistas propôs nesta quinta-feira um projecto ambicioso para criar um genoma humano sintético, ou rascunho genético, uma ideia que levanta preocupações sobre até que ponto é que a vida humana pode ou deve ser construída.

Um genoma humano sintético poderá tornar possível fabricar humanos sem parentes biológicos – criando o espectro, por exemplo, do aparecimento de humanos por encomenda com características genéticas "melhoradas".

Os cientistas disseram que esse não era o objectivo. Alegam que as aplicações potenciais de um genoma humano sintético incluem fazer crescer órgãos humanos para transplantes, criar imunidade contra vírus, criar resistência contra o cancro e acelerar o desenvolvimento de vacinas e fármacos usando células e órgãos humanos.

O projecto tem como objectivo construir um genoma sintético e testá-lo em células em laboratório dentro de dez anos. A ideia, que surgiu numa reunião em Maio, na Universidade de Harvard, nos EUA, em que participaram cientistas exclusivamente convidados para o encontro – tendo por isso sido alvo de denúncias como sendo demasiado secreta –, foi revelada nesta quinta-feira num artigo na revista Science escrito pelos cientistas envolvidos.

Os cientistas reconheceram que a ideia é controversa e disseram que iriam procurar o envolvimento público e ter em consideração implicações éticas, legais e sociais. A maioria dos investigadores trabalha em universidades e noutras instituições dos Estados Unidos. O trabalho foi baptizado "Projecto de Escrita do Genoma Humano".

Os cientistas esperam obter 100 milhões de dólares (89,75 milhões de euros) de financiamento público e privado para iniciar o projecto este ano e estimam um custo total abaixo dos 3000 milhões de dólares (2692 milhões de euros) gastos no Projecto do Genoma Humano, que mapeou completamento o ADN humano pela primeira vez em 2003.

Um genoma sintético envolveria o uso de químicos para criar o ADN presente nos cromossomas humanos. O novo projecto “irá incluir a construção de linhas celulares com o genoma humano completo e de linhas celulares com o genoma de outros organismos com relevância na agricultura e na saúde, ou de organismos necessários para interpretar as funções biológicas humanas”, escreveram os cientistas, liderados pelo geneticista Jef Boeke, do Centro Médico Langone da Universidade de Nova Iorque, no artigo.

Os cientistas disseram que um genoma sintético é uma “continuação lógica” dos instrumentos de engenharia genética usados nas últimas quatro décadas de um modo seguro pela indústria de biotecnologia.

O grupo também inclui especialistas da Escola Médica de Harvard, do Instituto de Tecnologia do Massachusetts, do Laboratório Nacional Lawrence Berkeley, da Faculdade de Medicina da Universidade Johns Hopkins, da Universidade de Yale, da Universidade de Columbia, da Universidade da Califórnia em Berkeley, da Universidade de Washington, todas elas instituições nos Estados Unidos, e da Universidade de Edimburgo, na Escócia, do instituto Autodesk Research, da empresa Bioeconomy Capital e de outras entidades.

Cientistas não envolvidos referiram possíveis benefícios do novo projecto, como conhecer-se a função de vastas partes do genoma que continuam misteriosas e ajudar a compreender melhor como é que os genes são regulados e por que é que há tanta variedade genética entre indivíduos e populações humanas.

“Irá também fornecer tecnologias para a terapia genética avançada e levar a uma compreensão muito maior de como o genoma está organizado e de como é que isso se altera nas doenças celulares”, disse Paul Freemont, co-director do Centro para a Inovação e Biologia Sintética no Imperial College de Londres. “O projecto não é assim tão controverso como alguns observadores estarão a dizer”, observou ainda John Ward, professor de Biologia Sintética da University College de Londres. “Não há nenhum pedido para se fazer um ser humano inteiro.”

O projecto surge numa altura de debate intenso sobre a ética de usar em embriões humanos o novo instrumento de edição genómica chamado CRISPR-Cas9, depois de cientistas chineses terem publicado em 2015 os resultados de um estudo que envolvia o uso daquela técnica em embriões humanos, levando a pedidos de proibição global deste tipo de investigação.

Os defensores dizem que a CRISPR pode ajudar a acelerar o esforço dos cientistas em corrigir e prevenir as doenças hereditárias, que passam no genoma de pais para os filhos. Mas os críticos preocupam-se com os efeitos desconhecidos nas novas gerações e a tentação de futuros pais alterarem o genoma de embriões para melhorar características como a inteligência e as capacidades atléticas.

Informação retirada daqui
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