domingo, 15 de julho de 2018

Biografia de Paul Thiébault

Thiébault, Paul-Charles-François
Barão do Império Francês
n: 14 de Dezembro de 1769 em Berlim (Prússia)
m: 14 de Outubro de 1846 em Paris (França)

Empregado na administração da dívida pública em 1792, Thiébault alistou-se no exército em Agosto desse ano e já era sargento em Novembro, mas foi demitido por motivos de saúde. Reapareceu em Fevereiro de 1793 com o posto de Alferes num Regimento de Infantaria de linha, sendo ajudante de campo do general Valence, comandante de um dos Exércitos da República, com o posto de capitão. Preso em Abril de 1793 acusado de cumplicidade com o general Dumouriez, que tinha desertado, foi libertado em fins de Maio. Em 1794 estava colocado no Exército do Interior e participou na repressão da insurreição realista de Vendimiário (Outubro de 1795) dirigida pelo general Bonaparte. Enviado para o Exército de Itália, onde exerceu as funções de chefe de estado-maior, foi nomeado general de Brigada por Masséna durante o cerco de Génova de 1800. Nesse ano publicou o livro Manuel des Adjudants-Généraux, sobre o serviço dos estados-maiores. Em 1805 comandou a brigada de vanguarda da divisão Saint-Hilaire, do 4º Corpo de Exército do marechal Soult, sendo ferido na batalha de Austerlitz.
Nomeado chefe do Estado Maior do Corpo de Observação da Gironda, é promovido a General de Divisão em 1808. Enviado para Espanha, após o abandono de Portugal, como todos os soldados e oficiais do antigo Corpo de Observação, é nomeado Barão do Império em 1811, regressando a França em 1812. Em 1810 publicou o Manuel Général du Service des Etats-Majors. Em 1813 e 1814 serve em Hamburgo, sob as ordens do marechal Davout. Apoia Napoleão Bonaparte durante os Cem-Dias, participando na defesa de Paris.

Fonte:
Jean Tulard e outros,
Histoire et Dictionnaire du Consulat et de l'Empire,
Paris, Laffont, 1995

Biografia de Jean Thomières

n: 18 de Agosto de 1771, em Sérignan (França)
m: 22 de Julho de 1812, na batalha de Salamanca (Espanha)

Eleito capitão num batalhão de Voluntários, serve no Estado-Maior do Exército dos Pirinéus-Orientais de 1793 a 1795. Transferido para o Exército de Itália como oficial de Estado-Maior, é ajudante-de-campo do futuro marechal Victor em 1797. Participa em todas as batalhas importantes das campanha de Itália, de 1795 a 1797 e de 1799 a 1801. Oficial do Estado-Maior do Grande Exército em 1805 é ajudante-de-campo de Lannes a partir de Janeiro de 1806.
Promovido a general de Brigada em Julho de 1807, é transferido para o 1º Corpo de Observação da Gironda em Outubro, em substituição do general Pierre-Etienne Petitot, que tinha morrido em 7 de Setembro. É ferido na batalha do Vimeiro, regressando a França em 1808. Enviado para Espanha participa na batalha da Corunha em 1809. Em Junho é Barão do Império, continuando a servir em Espanha, sob as ordens do general Kellermann. Transferido para o Exército de Portugal, participa na 3ª Invasão. Em 1812, continua no Exército de Portugal, agora sob as ordens do marechal Marmont, comandando provisoriamente a 7ª divisão, que dirige na batalha de Salamanca.

Fonte:
Jean Tulard e outros,
Histoire et Dictionnaire du Consulat et de l'Empire, 
Paris, Laffont, 1995. 

Biografia de D.Miguel

Terceiro filho de D. João VI e de D. Carlota Joaquina. Regressou à Metrópole com a corte vindos do Brasil no momento em que se ensaiava no País a primeira experiência liberal à qual a rainha e os seus apoiantes reagiram vivamente por manejos anti-revolucionários.

D. Miguel tomou o partido da mãe e hostilizou o pai assumindo atitudes políticas cada vez mais definidas, tendo encabeçado o Partido tradicionalista. Foi o executor dos movimentos da Vila-Francada e da Abrilada. O primeiro constituiu um espectacular triunfo político que o elevou a comandante-chefe do exército português. Após o segundo o rei demite o filho do alto posto ocupado e ordena o seu exílio.

Vive quatro anos em Viena de Áustria. D. Pedro IV, após a morte de D. João VI, herdeiro do trono e já imperador do Brasil, outorga a Carta Constitucional e abdica em sua filha D. Maria da Glória que casaria, uma vez chegada à maior idade, com D. Miguel seu tio. O país era governado por uma regência da presidência da infanta D. Isabel Maria. D. Miguel aceitou tudo quanto lhe foi proposto: jurou a Carta, celebrou esponsais com a sobrinha, protestou respeito e obediência a D. Pedro e à regente – e esperou. Malogrado o projecto de deslocar D. Miguel para o Brasil D. Pedro IV nomeia-o seu lugar-tenente em Portugal.

Chegado a Lisboa jura de novo a Carta, assume a regência e nomeia novo ministério. Dias depois dissolve as Câmaras. Da reunião das Cortes, para isso especialmente convocadas, resulta a aclamação de D. Miguel como rei absoluto. Após a assinatura da Convenção de Évora-Monte, que pós termo à guerra civil derimida a favor de D. Pedro e dos liberais, D. Miguel terminou o breve e contestado reinado regressando ao exílio donde não mais voltou.

D. Miguel nasceu no Palácio de Queluz, a 26 de Maio de 1802, recebendo o nome de Miguel Maria do Patrocínio João Carlos Francisco de Assis Xavier de Paula Pedro de Alcântara António Rafael Gabriel Joaquim José Gonzaga Evaristo, e faleceu em Carlsruhe, na Alemanha, a 14 de Novembro de 1866. Está sepultado no Convento dos Franciscanos de Engelberg.

Casou em 1851 com a princesa Adelaide de Loewenstein-Wertheim-Rosenberg, nasceu em Kleinhenbach, a 3 de Abril de 1831; faleceu em Cowes, Inglaterra, a 16 de Dezembro de 1909, filha do príncipe Constantino José e de sua mulher Maria Luísa Henriqueta, princesa de Hohenlohe-Langenburgo.  

Do casamento nasceram:
1. D. Maria das Neves. Nasceu no Castelo de Heubach, a 5 de Agosto de 1852; faleceu em Viena de Áustria, a 15 de Fevereiro de 1941. Casou a 26 de Abril de 1871 com o príncipe D. Afonso Carlos de Bourbon, que nasceu em Londres, a 12 de Setembro de 1849, e faleceu em Viena, a 29 de Setembro de 1936, pretendente carlista à coroa de Espanha;

2. D. Miguel, herdeiro legitimista à coroa de Portugal, com o título de D. Miguel II. Nasceu em Kleinenbach, a 19 de Setembro de 1853; faleceu em Seebenstein, na Áustria, a 11 de Outubro de 1927). Casou em 1877 com a princesa Isabel de Thurn e Taxis (n. em 28 de Maio de 1860; f. a 7 de Fevereiro de 1881), filha do príncipe Maximiliano de Thurn e Taxis e de sua mulher, a princesa Helena, duquesa na Baviera. Casou em segundas núpcias, a 7 de Novembro de 1893, com a princesa Maria Teresa Sofia Pia Ana Melchiora (n. em Roma, a 4 de Janeiro de 1870; f. em Viena, a 16 de Janeiro de 1935), filha do príncipe Carlos de Loewenstein-Wertheim-Roserrberg e da princesa Sofia de Liechstein. Com descendência dos dois casamentos.

3. A infanta D. Maria Teresa. Nasceu em Kleinheubach, a 24 de Agosto de 1855; faleceu em Viena, a 12 de Fevereiro de 1944). Casou a 23 de Julho de 1873 com Carlos Luís de Habsburgo (n. em Schoenbrunn, a 30 de Julho de 1833; f. em Viena, a 19 de Maio de 1896), arquiduque de Áustria e príncipe real da Hungria, irmão do imperador Francisco José. Com descendência.

4.  A infanta D. Maria José. Nasceu em Bronnbach, a 19 de Março de 1857; faleceu em Viena, a 11 de Março de 1943). Casou a 29 de Abril de 1874 com Carlos Teodoro, duque da Baviera (n. em Possenhofen, a 9 de Agosto de 1839; £ em Kreuth, a 30 de Novembro de 1909), filho do duque Maximiliano e da duquesa Luísa, princesa real da Baviera. Com descendência.  

5.  A infanta D. Aldegundes. Nasceu. em Bronnbach, a 10 de Novembro de 1858; faleceu em Gunten, na Suíça, a 15 de Abril de 1946). Casou em 15 de Outubro de 1876 com Henrique de Bourbon-Parma (n. em Parma, a 12 de Fevereiro de 1851; f. em Menthon, a 14 de Abril de 1905 ), conde de Bardi e filho de Carlos III, duque de Parma, e de sua mulher a duquesa Luísa de Bourbon-Artois. Sem descendência.

6. A infanta D. Maria Ana. Nasceu em Bronnbach, a 13 de julho de 1861; faleceu. em Nova Iorque, a 31 de Julho de 1942). Casou em 21 de Abril de 1893 com Guilherme Alexandre (n. Biebrich, a 22 de Abril de 1852; f. em Berg, a 25 de Fevereiro de 1912), filha do grão-duque Adolfo e de sua mulher Adelaide, grã-duquesa do Luxemburgo. Com descendência.

7.  A infanta D. Maria Antónia. Nasceu em Bronnbach, a 28 de Novembro de 1862; faleceu em Berg, no Luxemburgo, a 14 de Maio de 1959). Casou em 15 de Outubro de 1884 com Roberto de Bourbon (n. em Florença, a 9 de Julho de 1848; f. em Pianore, a 16 de Novembro de 1907), filho de Carlos III e de Luísa, duques de Parma. Com descendência.


Fontes: 
Joel Serrão (dir.) 
Pequeno Dicionário de História de Portugal, 
Lisboa, Iniciativas Editoriais, 1976
Joaquim Veríssimo Serrão 
História de Portugal, Volume VII: A Instauração do Liberalismo (1807-1832), 
História de Portugal, Volume VIII: Do Mindelo à Regeneração (1832-1851) e 
História de Portugal, Volume IX: O Terceiro Liberalismo (1851-1890) 
Lisboa, Verbo, 1984, 1986.

Abdul al-Aziz Ibn Saud

Descendente de uma família integrada no rigoroso movimento islâmico dos vaabitas, anteriormente expulsa do Kuwait, Ibn Saud conseguiu retomar o poder em Riad (1902) e restaurar o Estado vaabita. Logo após o desmoronamento do império turco, durante a Primeira Guerra Mundial, conquistou, em 1922, o norte da Arábia, então submetido à dinastia Rashid, e, após ter combatido contra o rei haxemita Hussain I Ibn Ali, anexou as cidades santas do Islão (Meca, 1924, Medina, 1925, e Gidá, 1926). Sendo rei de Nayd e de Hedjaz, em 1932, rebatizou o seu reino como Arábia Saudita. A exploração das riquezas petrolíferas do país, iniciada por algumas companhias norte-americanas em 1933, transformou-o no governante mais rico do Oriente Médio, convertendo-o ainda no mediador dos interesses dos EUA no âmbito dos países árabes. Manteve-se neutro durante a Segunda Guerra Mundial, bem como no decurso da primeira guerra árabe-israelense, de 1948. Durante o tempo em que modernizou a infra-estrutura do país, manteve um sistema político feudal, que mais tarde seria parcialmente reformado por seus filhos e sucessores, Saud Ibn Saud (rei entre 1953 e 1964) e Faiçal.

Biografia retirada de NetSaber

Alexandre, o Grande

Alexandre, o Grande (354-323 a.C.) foi rei da Macedónia. Conquistou a Ásia Menor, a Pérsia, e chegou até as margens do rio Indo, na Índia. Fundou a cidade de Alexandria, no Egito.

Alexandre, o Grande (356-323 a.C.) nasceu na Macedônia, norte da Grécia, em 356 a.C. Filho de Filipe II, rei da Macedônia, e Olímpia, descendente de família nobre do reino de Épiro. O herdeiro Alexandre, estudou com os melhores mestres. Aos 13 anos de idade, passou a ter como preceptor o filósofo grego Aristóteles, que transmitiu-lhe o gosto pela mitologia e poesia grega.

A Macedônia era uma nação pobre, cujos domínios estendiam-se desde a parte norte da atual Grécia, até a região que hoje forma o sul da Albânia. Na região viviam camponeses rudes, que falavam um dialeto derivado do grego. O poder dos soberanos era limitado. Havia uma assembléia popular, da qual participavam todos os guerreiros. O papel decisivo era desempenhado pelo conselho dos representantes da aristocracia territorial e militar. Para os gregos, a Macedônia era um país de bárbaros.

Filipe conhecia e admirava a riqueza da cultura grega, e se impressionava com a vastidão territorial e a opulência econômica do império persa. Acreditava na união dos dois povos. Em 336 a.C., quando Filipe II foi assassinado, Alexandre tornou-se rei da Macedônia. Assumiu o posto de chefe da Liga de Corinto (união de várias comunidades gregas), e comandante do mais bem preparado exército da época. Alexandre herdou do pai a arte da guerra, e compreendeu que a expansão da Macedônia seria seu principal objetivo.

Alexandre subiu ao trono com vinte anos e não hesitou em liquidar todos os que tramavam contra sua coroa. Algumas cidades gregas tinham se rebelado e tentavam desfazer a Liga de Corinto. Tebas era o centro da revolta, chegara mesmo a proclamar a independência da Grécia. A guerra foi declarada e Tebas foi arrasada. Só foi poupada a casa do dramaturgo Píndaro, como prova do respeito de Alexandre pelas artes.

A Liga de Corinto, atemorizada, concedeu a Alexandre plenos poderes para comandar a guerra contra os persas. Contribuiu apenas com pequeno contingente para a formação do exército grego-macedônico. Em 334 a.C, Alexandre iniciou uma campanha que propagaria o helenismo por toda a Ásia.

Quando Alexandre chegou na Ásia Menor, encontrou um enorme e desorganizado exército persa. Contando com menos soldados, os nove mil lanceiros, estavam distribuídos em seis batalhões, formando as falanges, que eram a espinha dorsal do exército macedônico. Unidades de cavalaria, arqueiros, artilheiros e especialistas em escaramuças, completavam o poderio de conquistador.

A batalha de Granico foi a primeira grande vitória do seu exército, que prosseguiu sua marcha rumando em direção à costa do Mediterrâneo. Por toda parte o Imperador ganhava confiança e o respeito dos povos vencidos. Avançou pela Cilícia, para confronto com o exército de Dário III, que logo foi vencido. Alexandre já tinha sob seu controle considerável parte do Mediterrâneo. Chipre, Tiro, Damasco e Jerusalém também ampliaram o império Macedônico.

O Egito foi ocupado pelo incrível exército. Alexandre visitou o Oásis de Amon, onde se fez tratar pelos sacerdotes como filho de deus. Fundou a cidade de Alexandria, que tornou-se o centro administrativo do império macedônico. Seguindo para o Oriente, foi aclamado "soberano da Ásia". O Gigantesco trabalho de integração realizado por Alexandre resultou, no intercâmbio comercial com os povos conquistados.

Rumores sobre insatisfação das tropas, que cruzou o deserto de Gedrósia, enfrentado escassez de suprimentos, tempestades e hostilidade das tribos conquistadas, chegaram ao conhecimento de Alexandre. Culpados e inocentes foram punidos. Dispunha de grande poder mas quase não tinha amigos. Só confiava em sua mulher e no amigo Eféstio.

Alexandre chega ao vale do rio Indo em 327 a.C., onde funda as colônias de Nicéia e Bucéfala. No caminho de volta, em 324 a. C., chega a Susa, onde toma duas novas esposas, Statira, filha de Dario III e Parisatis, uma jovem persa de nobreza local. Em 323 a.C., chega à Babilônia, onde contrai uma febre que, em dez dias lhe tira a vida.

Alexandre, o Grande morreu na Babilônia, no ano de 323 a.C.

Biografia retirada de e-biografias

D. Catarina de Bragança


É vulgar, em textos portugueses sobre a história de Portugal haver referências à rainha de Inglaterra, D. Catarina de Bragança, como alguém infeliz e desprezada pelo marido, o rei Carlos II. Repete-se constantemente que a filha de D. João IV e de D. Luísa de Gusmão foi uma rainha que sofreu as maiores desconsiderações do marido, por este ter mantido diversas favoritas. Se é facto que isso aconteceu, também é importante frisar que eram os usos da época. Convém divulgar que Catarina introduziu, além do chá, diversas inovações na corte britânica. Conheça melhor esta rainha no ano em que passam 300 anos sobre a sua morte.

            Relendo obras portuguesas e estrangeiras sobre a sua vida, pode-se afirmar que D. Catarina de Bragança foi, como tantas infantas portuguesas, casadas com reis e imperadores estrangeiros, tão feliz como as outras, tendo em conta que os casamentos reais eram contratos, onde interesses políticos e económicos pesavam mais que os aspectos românticos. Amor no casamento era um «luxo» que muito raramente acontecia na vida dos monarcas e imperadores, e consequentemente das rainhas e imperatrizes e isso quer a Oriente quer a Ocidente. 
            Mesmo no séc. XX fomos testemunhas de como isso foi verdade, com o xá do Irão ou com o herdeiro do trono da Grã Bretanha (Eduardo VIII) e mesmo com Nerhu, que não sendo monarca foi obrigado a casar com quem os pais decidiram, já para não falar do actual príncipe de Gales que teve de casar com Diana por imposição familiar.
            Carlos II de Inglaterra dedicou grande parte da sua vida às favoritas, que se contam pela vintena, e muitas não foram nada simpáticas para com a rainha, mas D. Catarina, mas esta com o tempo ganhou uma sabedoria muito especial para lidar com elas. No cômputo geral, os 23 anos de casamento de D. Catarina de Bragança, não foi menos conseguido que o da maioria das princesas do seu tempo e a prova é que Carlos II, foi por diversas vezes instado a divorciar-se e não o fez. Não tinha motivos, afirmava, aos que o aconselhavam a dar esse passo. Disse-o mesmo em declarações públicas. À sua maneira, respeitou e amou a sua rainha. 
            Quando já viúva, Catarina de Bragança, regressou a Portugal foi alvo de grandes manifestações de júbilo tanto da parte dos portugueses como da comunidade inglesa. Em Inglaterra teve, à despedida, todas as honras prestadas a uma rainha, a que o povo da rua se solidarizou e trouxe no seu séquito ingleses e inglesas que permaneceram vários anos no nosso país e de quem D. Catarina era amiga. Afinal era já, nos costumes e hábitos adquiridos, mais inglesa, que portuguesa. Podemos perguntar, e se Catarina de Bragança tivesse casado com Luís XIV como esteve para acontecer, em 1659? Teria sido mais feliz? Teria a casta e ingénua Catarina, educada num convento, alheia à vida mundana sido mais feliz movimentando-se numa corte cheia de intrigas, futilidades e invejas, num perfeito vespeiro que foi a corte de Luís XIV, com o constante rodopio de favoritas onde as irmãs Mancini se movimentavam, e depois entre a perfídia da Montespan e a duvidosamente virtuosa madame de Maintenon? Temos quase a certeza, que Catarina de Bragança acabou por ter mais sorte ao casar com Carlos II de Inglaterra. Pelo menos ele tinha consideração por ela e jamais pensou em a repudiar apesar de lhe não ter dado um herdeiro, o que era, na época, igual ou pior que ter má conduta moral!
            Catarina de Bragança foi a quarta filha de D. Luísa de Gusmão (espanhola de nascimento) e do futuro rei D. João IV (1604-1656), o rei da Restauração. Tiveram sete filhos. Dois faleceram à nascença e dois já adultos, entre eles o herdeiro, D. Jaime. Dois filhos de D. João IV foram reis de Portugal, Afonso VI, afastado do trono por ser parcialmente paraplégico e por haver uma forte facção da corte que o não apoiou e seu irmão D. Pedro II, que viria a casar com a cunhada quando o casamento de D. Afonso foi declarado nulo, por se suspeitar que não tinha sido consumado, por incapacidade física do rei. Este rei deu origem a uma peça literário El Rei Pasmado, passado ao cinema com êxito. 
            Como por vezes acontece, numa irmandade de sete, a coroa acabaria na cabeça do mais novo. Das infantas, apenas sobreviveu D. Catarina, que nasceu no dia de Santa Catarina, a 25 de Novembro de 1638, em Vila Viçosa. Foi muito mimada em pequenina pela mãe e damas da corte e quando deixou de ser pequenina foi mandada educar num convento em Alcântara. D. João IV partiu de Vila Viçosa para Lisboa depois do triunfo de 1 de Dezembro de 1640, e o resto da corte, a rainha e filhos só chegaram à capital, no Natal. Tinha a princezinha apenas dois anos. D. Catarina terá aprendido no convento a rezar, a bordar, a ouvir e aprender os rudimentos de música e algumas generalidades sobre História. Não aprendeu francês, nem inglês e terá saído do convento, até casar, apenas meia dúzia de vezes. Os únicos homens com quem falou eram da família. Não estava de modo algum preparada para um casamento com um estrangeiro e menos ainda com um inglês. Se fosse com um espanhol como eram a maior parte dos casamentos entre os dois países, seria certamente mais fácil, dada a afinidade de cultura e religião.
            Apetecia dizer como na história da Carochinha: «Quem quer casar com a princezinha que é que é bonita e formozinha! Depois de ponderadas várias hipóteses de casamento, nomeadamente com D. João de Áustria, bastardo de Filipe IV, o Duque de Beaufort, neto de Henrique IV, a mãe, D. Luísa de Gusmão já viúva e regente, procurou o melhor casamento para a filha. A diplomacia ditava-lhe uma aliança com Inglaterra para cimentar a nova dinastia de Bragança, que substituía o período filipino e que ainda nem todos os países tinham reconhecido, bem como a Santa Sé. E assim se fez. Foi escolhido Carlos II de Inglaterra. O contrato de casamento levou o seu tempo, pois foi tratado ao pormenor. Neste caso, havia ainda um problema que era forçoso ultrapassar, o da diferença de religião, mas os conselheiros da rainha D. Luísa de Gusmão adoptaram o estratagema de realizarem o casamento em território inglês, de modo que o papa não pudesse interferir. Desde o tempo de Henrique VIII, que a Igreja Anglicana não obedecia a Roma. 
            Carlos II de Inglaterra, viu os retratos da noiva e gostou da cara e cabelos dela. D. Catarina tinha deslumbrantes cabelos pretos, olhos muito escuros e um ar doce. É certo que os retratos pintados naquelas épocas e com fins de casamentos nunca mostravam as imperfeições. Neste caso o noivo ficou sem saber a estatura da noiva, que era pequenina, roliça e com os dentes ligeiramente salientes, mas, mesmo assim, não seria por falta de beleza que Catarina não seria rainha de Inglaterra. 
            Tudo ficou preparado para receber a católica princesa portuguesa em Portsmouth. Havia ainda algo que raras princesas da época podiam oferecer a Carlos II – um dote irrecusável de dois milhões de cruzados, a praça de Tânger em África, e a pequena feitoria na ilha de Bombaim, na Índia – que no séc. XVII era um território pobre e pouco previsível vir a ter o imenso desenvolvimento que os ingleses lhe deram. Estas possessões portuguesas significavam muito para a Inglaterra, que sempre privilegiou os pontos estratégicos, em termos de comércio e de guerra, e que mereceram do conde de Clarendon, conselheiro de Carlos II, mais tarde Lord Chanceller, o seguinte comentário: «podiam razoavelmente avaliar-se em mais do que o dote em dinheiro». A quantia do dote foi difícil de conseguir, dado o país atravessar um período de quase penúria. A rainha foi a primeira a vender as suas jóias pessoais, que eram muito valiosas, pois D. Luísa de Gusmão foi provavelmente a rainha portuguesa que mais rico dote trouxe, quando casou. Pertencia à casa Medina Sidónia e era quase um reino dentro do reino de Espanha. Para completar o dote de D. Catarina foi necessário empenhar pratas, jóias e outros tesouros de conventos e igrejas. O Brasil também contribuiu, porque ainda era colónia. 
            Nas cláusulas do contrato de casamento o dote seria pago em mais do que uma vez, pois era difícil conseguir o montante combinado. Aqui, mais uma vez a diplomacia portuguesa prestou um bom serviço. Foi Francisco de Melo Furtado, mais tarde conde da Ponte e marquês de Sande, quem tratou do contrato de casamento, assinado em 23 de Junho de 1661 e que se revestiu de grandes dificuldades, dada a influência do embaixador da Espanha em Inglaterra, que não podia dizer pior do nosso país e do aspecto físico da princesa Catarina. Valia-nos o interesse de Luís XIV que apoiou o enlace, tendo oferecido a Carlos II, seu primo, 30.000 pistolas e durante todo o reinado apoiou-o monetariamente, por diversas vezes.
            Carlos II foi também rei de uma Restauração, a chamada Restauração de Monck. Nasceu em 29 de Maio de 1630. O pai, Carlos I, subiu ao trono, em 1628 e depois de um reinado conturbado foi executado, em 1649. À decapitação de Carlos I seguiu-se uma república ditatorial liderada por Oliver Cromwell, entre 1649 e 1659. (Cromwell faleceu em 1658). Carlos II viveu no exílio, na Holanda, de 1651 a 1660. Quando o Parlamento restaurou a monarquia e o proclamou rei, ainda ele se encontrava em Haia. No dia da coroação, ainda na Holanda, tinha na sala um amigo português, o ministro Francisco de Sousa Coutinho, e nesse dia o novo rei disse que a coroa inglesa estava grata a Portugal pelo apoio que lhe fora dado no período de incerteza e solidão. 
            Carlos II é triunfalmente recebido em Londres em 29 de Agosto de 1660 e coroado no dia de São Jorge, em 23 de Abril de 1661. Durante os anos de exílio, o jovem príncipe da casa dos Stuarts esteve em diversos países, viu cometer muitas injustiças por questões religiosas e provavelmente passou ater uma visão aberta quanto à liberdade de culto, que facilitou durante o seu reinado, começando por casar com uma princesa católica, se bem que o povo e a maioria do Parlamento a isso se opusesse. E relembramos que a mãe de Carlos II era católica - Henriqueta Maria de França, filha de Henrique IV e de sua segunda mulher, Maria de Médicis. 
            D. Catarina de Bragança já rainha, teve, por diversas vezes, que passar por intrigas e perigosas conspirações pelo facto de ser católica. Vivia-se na Europa um período tenebroso de lutas e intolerância religiosa. 
            Carlos II tinha uma cultura acima da média para a época (era versado em História e aprendera Matemáticas com o filósofo Thomas Hobbes). Carlos II, Rei de InglaterraO seu rol de amantes variavam desde as aristocratas de boa linhagem a comediantes de duvidoso estatuto social. Teve quinze bastardos. Um rei Ter amantes era vulgaríssimo, para não dizer generalizado, desde sempre, e as futuras consortes dos reis já sabiam, a priori, que assim era. E se muitos reis tinham favoritas apenas pelo prazer físico e o jogo da sedução, não pudemos esquecer a elevadíssima taxa de mortalidade infantil, que grassou praticamente em toda a Europa até finais do séc. XIX. Daí que filhos, bastardos ou não, eram bem-vindos. E quantos não foram reis? Carlos II, apesar de Catarina de Bragança não ter nunca conseguido levar avante nenhuma gravidez foi um marido atencioso e meigo, passem algumas humilhações que lhe terá feito passar. Mas isso foi apenas nos primeiros tempos. 
            Ser rainha pressupõe também uma preparação específica que a infanta portuguesa não tivera. Foi à sua custa que aprendeu. A jovem rainha D. Catarina também não teve sorte com as damas de companhia que lhe tinham escolhido. Eram senhoras aristocratas, é certo, mas algumas já viúvas eivadas de preconceitos, extremamente religiosas, ou quase beatas, que não serviam como conselheiras da jovem princesa naquela corte tão diferente da portuguesa. Catarina levou poucas damas de companhia jovens e com espírito alegre e arejado. Entre as damas que foram no seu séquito, por sugestão da França, que apoiou, sem reservas o enlace, encontrava-se Frances Teresa Stewart, educada em França, e que caiu nos braços de Carlos II, em 1663. Era considerada extremamente bela e viria mais tarde a ser duquesa de Richmond e Lennox, quando casou com o duque do mesmo nome. Mas a amante oficial de Carlos II era a condessa de Castlemaine, mais tarde duquesa de Cleveland (Barbara Villiers, depois, por casamento, Palmer, conhecida apenas por Lady Palmer.) Também se contavam entre as favoritas uma Lady Byron. 
            Carlos II tivera filhos ainda solteiro. O primeiro bastardo nasceu quando vivia na Holanda e contava apenas 16 anos. Seguiu-se outro filho de uma ligação com Lucy Walter, filho legitimado mais tarde e a quem foi dado o título de duque de Monmouth que viria a dar ao casal real, bastantes amarguras e sobressaltos. O rei terá escapado de atentados perpetrados por este filho que o quis tirar do trono, com o apoio de uma parte da Câmara dos Comuns que também não queria como rei o irmão Jaime, duque de Iorque. Enfim, eram as habituais intrigas da corte, muitas vezes sangrentas.
            Uma armada de vinte navios, comandada pelo conde de Sandwich, saiu de Lisboa, no meio de grandes festejos de despedida no rio Tejo. A infanta D. Catarina de Bragança embarcou no Royal Charles, que rumou a Portsmouth e onde chegou a 25 de Maio. O rei não a foi esperar, devido a qualquer assunto urgente de Estado ou para satisfazer o capricho da favorita, ciumenta com a proximidade do casamento. Receberam Catarina de Bragança o conde de Manchester e vários outros representantes do monarca. A infanta portuguesa ficou hospedada em King’s House, residência do governador da cidade. Porém, uma infecção na garganta vai retê-la no leito. Nessa altura alguém da corte, talvez o médico, sugeriu dar-lhe a beber um copo de cerveja, bebida já vulgar em Inglaterra. D. Catarina de Bragança, com a garganta a arder e com muita febre pediu em espanhol, uma chávena de chá, o que deve ter provocado uma enorme perturbação entre os presentes, pois o chá não era bebida conhecida na corte. O chá, hoje a bebida oficial do Reino Unido, foi, como sabemos, introduzida por esta nossa rainha na corte inglesa, já vamos saber como e quando. 
            O atencioso marido foi visitá-la, ainda convalescente, tendo o casamento tido lugar em 31 de Maio de 1662. O enlace foi uma cerimónia privada pelo rito católico e depois, para os convidados, pelo rito da Igreja Anglicana, como estava estipulado no contrato de casamento. Embora alguns escritores e cronistas ingleses, da época, se referissem à fealdade de Catarina, isso não passou de intriga e pura maledicência, pois Carlos II, que sabia apreciar o belo sexo e que recusara outras princesas europeias, nomeadamente duas de Parma, uma por ser como disse «demasiado feia e a irmã por ser demasiado gorda», também dizia: «detesto as alemãs e as princesas de países frios». D. Catarina, estava precisamente no meio. Era oriunda de um país temperado, morena, jovem e relativamente bonita de cara. Em carta a Clarendon, Carlos II, refere-se à sua esposa, nestes termos: «se não pode ser considerada uma grande beleza tem os olhos excelentes. A sua cara não repele e, se eu sei ser fisionomista, deve ter muita bondade. A sua conversa é agradável e tem boa voz. Já nos entendemos muito bem e julgo-me feliz». Carlos II, como vemos, desde logo, mostrou-se satisfeito com a sua mulher, embora a achasse muito pequenina. 
            D. Catarina amou o marido, desde o primeiro momento e até ao dia da sua morte, em 1685. Sobre o amor que Catarina dedicou ao marido fala-nos a inglesa, Margaret Campbell Barnes, na obra With All My Heart: the love story of Catherine of Braganza, Londres, 1951, e ali dá-nos uma visão positiva de um casamento real do séc. XVII europeu. 
            Os primeiros dias de casados foram passados em Hampton Court que estava luxuosamente mobilado e decorado. D. Catarina também levou móveis, entre eles preciosos contadores indo-portugueses que nunca tinham sido vistos em Inglaterra.
            Quando D. Catarina iniciou a sua vida de rainha, o rei, que tinha como favorita Barbara Palmer, de quem teve seis filhos pressionou-a para escolher Barbara como dama da corte. A rainha começou por recusar, e foi com muita relutância que aceitou. Ficou famosa a sua frase: «O rei pode fazer o que lhe aprouver, mas não com o meu consentimento», o que prova que a sua bondade não era ilimitada. 
            As damas de companhia que a infanta portuguesa levou de Portugal eram motivo de troça na corte inglesa. Usavam trajes antiquados eram extremamente sisudas. Foi a camareira-mor, a inglesa condessa de Suffolk e o mordomo-mor, também inglês quem aconselharam a rainha Catarina a «desculpar» o comportamento do rei. Foi uma adaptação difícil, mas com o tempo a rainha a tudo se habituou e chegou a proteger os bastardos do marido e a suportar a presença das favoritas. 
            D. Catarina aderiu à moda de vestir inglesa o que a beneficiava e que era copiada da corte francesa, que, com Luís XIV, marcava a Europa inteira. Muitas rendas, tecidos de sedas que vinham de longe, sapatos sempre a condizer com o a cor do vestido, cabeleiras, jóias e colares de pérolas enormes. Os homens usavam caprichosas cabeleiras cuidadosamente tratadas (em Inglaterra, as cabeleiras não eram de cabelo natural como em França, devido ao perigo de doenças de pessoas mortas, eram artificiais).
            D. Catarina, infanta de Portugal, o tal país que os detractores diziam ser paupérrimo e com uma corte sem maneiras, introduziu inovações na corte inglesa, e não apenas o hábito de se tomar chá. Uma das primeiras inovações tem a ver com a estranheza que a rainha demonstrou ao ser servida, às refeições em pratos de ouro ou prata. Os alimentos estavam sempre frios e a rainha terá perguntado porque se não usavam pratos de porcelana, algo que na corte portuguesa já se usava há muitos anos. Não sabemos se demorou muito tempo a efectuar-se essa importante mudança na baixela, mas acreditamos, que Carlos II terá mandado substituí-los. A primeira fábrica de porcelana inglesa só foi fundada, em 1743, em Chelsea, e a de Worcester em 1751. 
            A infanta portuguesa também se deslocou para Inglaterra com uma orquestra composta de músicos portugueses, o que era um sintoma de civilidade e cultura. Se não formos nós portugueses a fazer referência a estes pormenores, eles ficam esquecidos na História Universal, normalmente feita por homens e que pouco valor dão aos pormenores que marcam a diferença. 
            As cartas entre mãe e filha eram constantes. A rainha D. Luísa de Gusmão ainda a filha estava no alto mar já lhe enviava palavras repassadas de saudades, assim: « My Catalina de mis ojos yo se sentir las saudades q declararlas no se sy esto effecto dellas sy medio para no deslicirlas mas espero deverte el conocimiento do q te amo y q me es mayor verdugo que la soledad cõ q me dexas (...) ». Como vemos é uma carta repassada de ternura onde se misturam as saudades lusitanas e «la soledad» espanhola. Era também em espanhol que D. Catarina comunicava com o seu marido, antes de dominar a nova língua, que começou a aprender em Portugal logo após o contrato de casamento. Mas sabe-se que teve alguma dificuldade com o inglês.
            O reinado de Carlos II não foi fácil. O Parlamento tinha um poder imenso que lhe vinha do facto de ser ele a acordar ou negar apoio financeiro a todas as propostas do rei. Mais tarde, como o herdeiro tardava a chegar a Câmara dos Comuns pressionou o rei para se divorciar de Catarina de Bragança podendo invocar dois motivos de peso - a esterilidade e o facto de ser católica, num país protestante. Todos os métodos foram usados para a afastar. Houve mesmo quem falasse com o confessor da rainha para este a convencer a entrar para um convento e assim o rei poder divorciar-se para casar com outra princesa que lhe pudesse dar um filho., porém D. Catarina respondeu «nunca me separarei do homem que amo». A própria cunhada, Henriqueta Ana, de quem Catarina muito gostava (era casada com Filipe de Orleães, irmão de Luís XIV) foi induzida a convencer Catarina a divorciar-se, mas Henriqueta de Orleães recusou fazê-lo. O Parlamento chegou a oferecer ao rei uma importância de 500 000 libras caso aceitasse divorciar-se, mas Carlos II, mesmo com pouca disponibilidade de fundos não se deixou convencer. Sempre firme argumentava que não tinha qualquer censura a fazer à sua rainha, que era muito bondosa. 
            E pudemos perguntar: Se Catarina de Bragança fosse assim tão infeliz como afirmaram alguns autores, teria pura e simplesmente aceitado o divórcio e regressado a Portugal. Ela não quis. 
            Porém, a rainha ainda teve de passar por mais provações, estas não da parte do rei. Em 1678, surgiu a chamada Conspiração Papista, em que a rainha foi formalmente acusada no Parlamento, por um ex-jesuíta depois padre protestante, ligado a grupos muito dissolutos, Titus Oates, de estar por detrás de uma conspiração para matar o rei. Foram perseguidos e mortos muitos católicos. O rei tudo ouviu e nunca duvidou da lealdade de D. Catarina, que, nestas ocasiões se refugiava na capela a rezar a Nossa Senhora da Conceição (escolhida para padroeira de Portugal por seu pai em 25 de Março de 1646). O próprio azeite que iluminava a lamparina da imagem era-lhe enviado de Portugal. 
            Segundo os biógrafos de Carlos II, passadas as tormentas políticas e desfeitos os equívocos, o casal real passeava de mãos dadas pelos palácios. Residiam de Verão em Windsor e passavam o Inverno em Whitehall, com atitudes de dois apaixonados. Iam ver os barcos e o mar em Richmond, de que ambos tanto gostavam. Um dos primeiros navios saídos dos estaleiros ingleses, logo após o casamento, teve o nome da rainha, por escolha do rei. Mais tarde, durante as lutas entre a Holanda e a Inglaterra, Catarina fez questão de oferecer à esquadra de Carlos II, uma fragata, paga por si, com o significativo nome de Saudades. Como vemos isto é uma atitude de uma rainha perfeitamente respeitada e integrada na sociedade inglesa. 
            D. Catarina teve, nos momentos de crise, da parte do conde de Castelo-Melhor um grande aliado. O conde tinha sido banido de Portugal por ter conspirado contra a rainha viúva Luísa de Gusmão por causa dos filhos Afonso e Pedro e as facções da corte, mas, em Inglaterra, Castelo-Melhor foi um fiel servidor da infanta portuguesa. Mais tarde também o marquês de Arronches iria proteger Catarina, durante a ofensiva de Oates na Conspiração Papista. Em 1661 o casal real muda de Whitehall para Windsor. Em 1665 houve uma terrível peste em Londres, tendo a corte mudado para Hampton Court e depois para Oxford. Na corte inglesa, apesar de algumas convulsões políticas, internas e duas guerras com a Holanda, havia tempo para a alegria de viver. Havia jogos em que toda a corte participava, bailes constantes e muito teatro. D. Catarina tímida, de início refugiava-se na capela. Depois, triste por ver o seu marido rodopiar nos salões com outras damas, também aprendeu a dançar, o que passou a fazer muito bem. O aniversário do seu nascimento era festejado com um grande baile, um banquete requintado e muito fogo de artifício lançado das margens sobre o Tamisa. 
            Segundo o embaixador francês na corte inglesa, de 1661 a 1665 havia bailes e teatro com grande frequência e durante o dia. O rei ocupava o seu tempo «junto da rainha ou de Lady Castlemaine». Nos bailes do palácio a corte intriguista interrogava-se: «Será que o rei hoje vem com a portuguesa?» 
            Carlos II, além de grande caçador, gostava de corridas de cavalos, jogava bem ténis e tinha uma perfeita loucura por cães, que levava para a cama. Era vulgar rodear-se de mais de quinze caninos e era visto regularmente a passear-se com a sua matilha entre Knightsbridge e St. James. 
            D. Catarina de Bragança tentou impor na corte as saias mais curtas, onde se pudessem ver os seus pés delicados, mas as damas da velha Albion, de pés grandes, não a seguiram. Outra inovação introduzida por Catarina foi a substituição da máscara de passeio em seda negra pelos leques, numa perfeita herança espanhola de sua mãe, D. Luísa de Gusmão.
            O duque de Iorque, segundo irmão de Carlos II casou, em primeiras núpcias com Ana, filha de Lorde Chanceler. Tendo enviuvado casou com a muito jovem e católica princesa italiana, Maria Beatriz de Modena e passou também ele a professar a religião católica. A corte mostrou-se extremamente fria com a nova princesa, e foi a rainha Catarina quem a recebeu com muito afecto e mandou vir uma companhia de ópera expressamente de Itália, para comemorar o facto e para lhe agradar. Foi esta a primeira vez que uma ópera italiana foi ouvida em Inglaterra. A rainha discreta sabia, com muita diplomacia, mostrar que também tinha poder na corte. 
            D. Catarina de Bragança é uma das infantas portuguesas de quem há mais iconografia. Foi pintada por inúmeros pintores, desde o miniaturista Samuel Cooper, que nos deixou aguarelas, passando por Peter Lely, o pintor oficial da corte de Carlos II, que nos legou mais de meio milhar de obras, mas, quem melhor imprimiu na tela a «verdadeira» infanta portuguesa Catarina de Bragança, rainha de Inglaterra, foi Huyssman, pintor que além de admirar a rainha, era católico e a imortalizou em dois retratos muito ao gosto dela. Um, onde Catarina está com o cordeiro pascal e um Cupido, numa alegoria misto de religiosa e profana onde se faz a apologia do amor. Foi assim representada a rainha num quadro como pastora e noutro onde Catarina está representada como Santa Catarina. Também o pintor francês Henry Gascar a retratou em belas composições.
            Sem dúvida que o primeiro chá bebido na corte inglesa por D. Catarina de Bragança lhe terá sido enviado de Lisboa vindo da China via Macau, primeiro entreposto comercial entre o Ocidente e o Oriente (desde 1557). Ela não o levou na sua bagagem como aparece escrito em todo o lado, erradamente. 
            Sobre a história do chá uma das primeiras referências encontra-se na obra de Giani Battista Ramusio em Delle Navigationi et Viaggi, 1559 e segundo as enciclopédias britânicas, o chá terá sido introduzido em Inglaterra em 1579 por Christopher Borough depois de uma expedição à Pérsia, mas só se generalizou por volta de 1660. 
            Porque é importante saber a história verdadeira da introdução do chá na corte britânica, procurámos textos que nos provaram que o chá começou a ser bebido, naquela ilha, nas camadas baixas da sociedade, não na camada mais pobre, mas sim por homens e mulheres vendedores de produtos alimentares e outros que se levantavam de madrugada para abastecer a grande cidade. Na ausência de alimentos, bebiam chá, que não passava de água quente, preparada, sem grande cuidado com umas folhas de má qualidade de chá, ou moído, para enganar a fome. 
            A palavra chá entrou na língua portuguesa através «da forma fonética da língua mandarínica e do dialecto de Cantão e passou a várias línguas como o espanhol (arcaico), o grego e línguas eslavas. A palavra «tê» do dialecto Amoy e de Fun-Kien foi adoptado pelas línguas espanhola, francesa, inglesa, alemã e grego moderno (tem as duas formas)». É curioso notar, que ainda hoje, nas camadas populares de certas regiões da Grã Bretanha se diz «tchá», como em Liverpool. 
            A rainha Catarina terá ensinado a preparar o chá e a bebê-lo acompanhado de bolos. E passou a ser preparado em bules de porcelana. Pensa-se que a princesa portuguesa, ou alguma dama da sua comitiva, terá levado para a corte inglesa a receita do doce de laranja, preparado na zona de Vila Viçosa, onde este fruto abunda. A verdade é que o termo «marmalade» é a palavra portuguesa «marmelada», que é confeccionada com marmelo, fruto que não era conhecido em Inglaterra. A «marmalade» inglesa é doce de laranja. A «marmelada» portuguesa entrou em Inglaterra em 1495 «In fact, marmalade did first arrive thus in England from Portugal and before long also from Spain and Italy, where the Portuguese term for the confection was like wise (sic.) adopted». Quanto ao chá eram principalmente os ingleses e holandeses que o comerciavam na Europa. 
            Uma das amantes do rei que mais humilhações causou a D. Catarina de Bragança foi Luísa de Kéroualle, que era também a ponte de informações políticas entre a Inglaterra e a França. Teve um filho e uma filha do rei e mais tarde foi-lhe dado o título de duquesa de Portsmouth. «Mulher de grande beleza, mas enormemente viciosa e voraz», segundo um autor da época. 
            Quando a rainha, embora dócil e serena, «perdia a paciência» com as favoritas do marido, ia para o palácio de Somerset-House, onde passeava muito a pé e fazia por esquecer os desgostos. Estava perto do rio e da capela e essa solidão acalmava-a. Uma das actividades a que D. Catarina de Bragança deu particular atenção foi exercitar-se no tiro ao alvo e viria a ser nomeada protectora da Corporação dos Archeiros de Londres. 
            No Novo Mundo, a cidade de Nova Amsterdão, fundada por holandeses, em 1626, foi conquistada pelo duque de Iorque, irmão de Carlos II e passou, em 1664, a denominar-se Nova Iorque. As áreas próximas da cidade passaram a King’s Country e Queens Country. (Nova Iorque só passou definitivamente para a posse de Inglaterra, em 1674). 
            Em 1998 esteve programada a inauguração, em Queens de uma estátua monumental à rainha Catarina. A iniciativa da construção da uma estátua partiu da associação Friends of Queen Catherina e contou com o apoio de várias entidades portuguesas, públicas e privadas. Previa-se uma festa com pompa e circunstância, o que não aconteceu, porque houve movimentos cívicos norte-americanos que se opuseram, alegando que a rainha D. Catarina de Bragança fora «a responsável» pela introdução de mão-de-obra negra, ida de África, nas então colónias inglesas. Enfim, nada como pôr as culpas aos mais fracos. Que puder tinha D. Catarina para tal? Essa decisão coube ao rei e aos seus conselheiros. 
            Normalmente o cidadão comum não sabe exactamente o que é um anacronismo, isto é não sabe que se não pode ver uma época com a mentalidade que se tem no presente. A escravatura era algo, que era aceite na época, passe tudo o que isso hoje nos possa repugnar. Daí que D. Catarina ficou com a estátua arrumada num armazém. E não se fala de nada porque não é politicamente correcto. 
            Pessoalmente espero que um dia a tragam para Portugal. Fica cá muito bem e há tão poucas mulheres na estatuária urbana! Talvez em Vila Viçosa, onde a infanta portuguesa nasceu. 
            A autora da estátua, Audrey Flack talvez gostasse de ver a sua obra exposta, até porque é uma escultura extremamente bela. D. Catarina é mostrada como uma rainha jovem de cabelos encaracolados, bonita e com uma bola de vidro ( o mundo) na mão esquerda.
            À corte de Carlos II e Catarina de Bragança chegavam grandes pintores como Rafael e Ticiano entre outros e Luís XIV enviou para a corte inglesa arquitectos, paisagistas e grandes gravadores. O reinado de Carlos II saldou-se por um período de grande incremento cultural e protecção das artes e ciências. O rei tinha o seu laboratório onde gostava de fazer experiências químicas. Vários palácios foram recuperados. O palácio de Windsor sofreu grandes beneficiações, e Winchester dizia-se ser parecido com Versalhes. Foi reorganizada a Marinha, fundou-se, em 1662 a Royal Society, foi criado o Royal Observatory of Greenwich e a Mathematical School at Christ’s Hospital e, em termos de legislação, foi promulgada a lei do Habeas Corpus, em 1679. 
            Quando D. Catarina e D. Carlos II viviam já uma vida de mais tranquilidade e harmonioza, e o rei reduzira a sua constante mudança de favoritas, começou a ter problemas de saúde. Nunca se soube exactamente o que o vitimou a 6 de Fevereiro de 1685, com cinquenta e cinco anos. Várias teorias foram avançadas, uma, que não foi excluída, foi o perigo a que o rei se expusera ao fazer experiências químicas e ao manipular matérias como o mercúrio, no seu laboratório. Como sempre, levantaram-se suspeitas de envenenamento e o rei foi autopsiado, mas nada ficou provado. Teve numa primeira fase uma paralisia facial, piorou, mas esteve lúcido até ao fim, tendo mesmo recomendado que se não esquecessem de dar corda a um determinado relógio. Curioso, que se verificou que só com os reis de quem o povo gosta é que se levantam suspeitas de envenenamento. É sempre difícil aceitar a morte de quem se ama. 
            Carlos II despediu-se dos filhos bastardos, tendo pedido ao irmão e sucessor no trono que os protegesse, bem como às ex-amantes. A rainha D. Catarina passou os piores dias da sua vida, ao ver o homem que amava piorar de dia para dia. Chorou muito a ponto de não conseguir entrar no quarto do marido. Pediu a alguém que transmitisse ao rei que ela lhe pedia perdão se involuntariamente o tinha feito sofrer e Carlos II terá dito: «Ai de mim. Pobre mulher. Pedir-me perdão. Eu é que lhe peço perdão de todo o coração». D. Catarina tudo perdoou e chorou amargamente a perda do homem que amara com respeito durante 23 anos. 
            O funeral foi de noite, apenas para os mais íntimos, no dia 14 do mesmo mês, por causa das eternas guerras das religiões. O caixão de Carlos II ficou na Abadia de Westminster onde depois se procedeu às cerimónias fúnebres. O rei no seu leito de morte, como era desejo da mulher e do duque de Iorque converteu-se ao catolicismo e comungou. Alguém disse deste rei que foi «Príncipe de muitas virtudes e muitas imperfeições».
            D. Catarina ainda ficou no seu país de adopção mais nove anos. Viveu oito anos em Whitehall e depois foi residir para Somerset House. Viu subir ao trono o cunhado, Jaime II, com quem se dava muito bem, mas que foi deposto, em 1688, pelo genro Guilherme de Orange, que subiu ao trono com o título de Guilherme III. Este rei como era protestante, embora tratasse a rainha viúva com respeito, mandou reduzir a sua criadagem e D. Catarina passou a ser olhada com desconfiança, pois era, agora, a única católica da corte. E assim a rainha viúva passou a viver recolhida escrevendo cartas constantes ao irmão e rei de Portugal, D. Pedro II, pedindo-lhe para regressar. 
            Chegou finalmente o dia do regresso à pátria. A rainha D. Catarina de Bragança, saiu, em finais de 1692, de Somerset-House acompanhada por uma comitiva de cento e vinte pessoas e chegou a Portugal no início de 1693. A viagem foi longa e demorada e Luís XIV convidou-a para descansar da viagem e fazer uma estada em França. A rainha viúva declinou o convite que a sensibilizou muito. À passagem por Espanha (país da mãe) teve manifestações de simpatia. A sua chegada a Portugal foi festejada com verdadeiro júbilo, em todo o percurso até Lisboa. Aqui as festas da sua chegada duraram três dias. D. Catarina residiu em diversos palácios, hábito que trouxe de Inglaterra. Teve como primeira morada o palácio de Alcântara, passou para o dos condes de Redondo, depois residiu na Penha de França, no palácio dos condes de Soure e ainda no palácio de Belém, dos condes de Aveiras, até que acabou os seus dias no palácio que mandou construir - Palácio da Bemposta - no último dia do ano de 1705. Até morrer recebeu uma pensão que lhe era enviada por paquetes ingleses, datando dessa data uma carreira regular entre os dois países. 
            Por impedimento do rei de Portugal D. Pedro II, Catarina de Bragança foi por duas vezes regente. Antes de morrer quis voltar a Vila Viçosa, o que aconteceu, em Fevereiro de 1699. 
            Dela disse a escritora Lillias Campbell Davidson, «She was one of the best and purest women who ever shared the throne of England». E Hamilton diria desta rainha portuguesa «It was a sensible woman and devoted all her energies to pleasing the King by those services which were least painful to her tender feeling (...) » . 
            Em 1914 os seus restos mortais foram transladados do Mosteiro dos Jerónimos para S. Vicente de Fora. 

Notícia retirada daqui

Eduardo VIII

Eduardo VIII foi monarca apenas durante dez meses e vinte e cinco dias. Viu-se forçado a abdicar apenas porque o seu casamento com uma norte-americana duplamente divorciada não era aceitável numa conservadora família real inglesa.

Desde 1936 até aos nossos dias que as mais diversas teorias para essa abdicação nos são apresentadas. Parece mesmo que a senhora divorciada não seria o único argumento, mas o facto é que, ontem como hoje, na religião anglicana (o chefe é o próprio rei) uma mulher divorciada não pode ser rainha.
Carlos de Windsor, herdeiro do trono quando casou recentemente com Camila Parker-Bowles terá escrito uma nova página da história do seu país.
Recordamos hoje aqui o lado ignorado do seu tio-avô, o rei Eduardo VIII que foi durante vinte e cinco anos Príncipe de Gales: Eduardo VIII rei da Grã-Bretanha, da Irlanda do Norte e imperador da Índia tornou-se célebre, porque foi o primeiro, que na história da velha Albion, abdicou do trono.

No dia 23 de Junho de 1894 às dez horas da manhã nascia, em White Lodge, Richmond Park no Surrey, o filho primogénito do futuro rei Jorge V e de sua mulher Maria de Teck (Maria Augusta Luísa Olga Paulina Claudina Inês). O apelido Teck pertencia a um principado alemão. O neófito tinha ainda vivos o avô Alberto-Eduardo (EduardoVII) e a bisavó, a tutelar rainha Victória. O princepezinho nasceu em plena semana das corridas de Ascot e o baile no Grande Parque de Windsor foi interrompido, por momentos, para se anunciar a chegada do novo membro da família real. Todos brindaram ao acontecimento e consideraram, naquela típica fleuma britânica, que fora um dia muito inconveniente para vir ao mundo!
O nome completo do príncipe foi Eduardo Alberto Cristiano Jorge André Patrício David, sendo os quatro últimos nomes de santos respectivamente da Inglaterra, Escócia, Irlanda e País de Gales. Teve no seu baptismo doze madrinhas e doze padrinhos. A rainha Victória ficou radiante com o nascimento do primeiro bisneto, visto o seu reinado entrar no quinquagésimo sétimo ano. Foram tirados retratos com as quatro gerações, pois tal facto aconteceu pela primeira vez naquela monarquia secular. 
Eduardo passou a sua infância em Sandringham numa bela casa a que chamavam Iorque Cottage. Teve, como os irmãos, nurses e aprendeu a ler, escrever e contar e brincava com os irmãos que foram nascendo: Alberto (que viria a ser rei), Henrique, Maria, Jorge e João. 
Na cerimónia fúnebre da rainha Vitória, em 1901, os dois príncipes, Eduardo e Alberto, tinham apenas seis e sete anos e foi com todo o aprumo que assistiram às exéquias da bisavó. 
Em Janeiro de 1901 Eduardo VII, filho da rainha Victória, subiu ao trono, que ocupou apenas até 1910, data da sua morte. Entre avô e neto (Eduardo VII e Eduardo VIII) houve uma amizade grande, forte, especial, afável e cheia de humor e este avô influenciou muito a formação intelectual do neto, que gostava de ouvir as suas histórias, porque Eduardo VII, quando príncipe de Gales percorreu o mundo inteiro e era uma cidadão do mundo. Foi amigo do nosso rei D. Carlos casado com a rainha Dona Amélia e da rainha-mãe, Maria Pia de Sabóia. 
Eduardo (Futuro Eduardo VIII) e o irmão que se lhe seguiu, Alberto (pai de Isabel II), foram educados por um antigo professor de Oxford, aprendendo as matérias que era costume na época: ciências, letras, história e geografia, completadas com exercícios físicos, em especial cricket, golfe, futebol e equitação(rigorosamente vestidos à escocesa). Para aprenderem línguas tinham professores de francês e alemão. Eduardo falou sempre melhor o alemão que o francês e seria mais tarde francamente germanófilo. 
Em Fevereiro de 1907 Eduardo, que em família foi sempre chamado pelo seu último nome, David, entrou para o colégio naval de Osborne, tendo depois passado ao de Darmouth. É de referir que os príncipes Eduardo e Alberto foram a primeira geração de membros da família real que estudou em escolas públicas. Era um progresso. 
Porém o pai, o rei Jorge V, decidiu que o filho mais velho devia abandonar a Marinha. Passou por Oxford, sem se evidenciar como aluno. Em 1912, com 18 anos, Eduardo passou uns meses em Paris, sem adivinhar que um dia seria a cidade onde iria viver. Ficou hospedado no castelo de Breteuil, mandado construir por Luís XIII. Desde os 17 anos que, como herdeiro do trono, Eduardo tinha o título de Príncipe de Gales. Era admirado pelas jovens que o achavam bonito, amável e sorridente. Magro, loiro, não muito alto e com uns olhos muito azuis, muitos lares ingleses tinham orgulhosamente o seu retrato emoldurado na parede. Eduardo desde cedo sentia alguma distância perante o pai. Jorge V foi um rei perfeitamente à antiga. O primogénito, desde sempre mostrou uma certa rebeldia pelas cerimónias e pompa, própria das cortes antigas. O luxo e os uniformes nas paradas deixavam-lhe uma sensação de mal-estar.

Como qualquer jovem, daquele tempo, ir para a guerra era a melhor oportunidade de se cobrir de glória. A guerra tinha ainda uma aura de heroicidade e virilidade que um herdeiro de uma coroa não podia desprezar. Mas os dois jovens príncipes só pontualmente apareceram no teatro das operações. O duque de Iorque (futuro Jorge VI) tinha pouca saúde e era mais poupado às cerimónias oficiais. 
O príncipe herdeiro desejou ardentemente participar com o seu país na 1ª Grande Guerra, mas quando se apresentou, em Outubro de 1914, em Whitehall fardado e pronto a partir, foi-lhe explicado que, como herdeiro do trono, não podia participar na guerra, ao que o jovem respondeu: «Que importa se morrer, tenho mais quatro irmãos!». O ministro da Defesa, Kitchener, explicou-lhe que morrer em combate era uma honra, mas o perigo era ser feito prisioneiro e isso sim, era a maior indignidade para um príncipe. No entanto, em França Eduardo ainda foi ajudante de campo de um general. Esteve ainda no Egipto e depois no Sudão, em Cartum, e teve de redigir um relatório sobre a situação no canal de Suez. No Egipto não se deixou seduzir pelas belezas da Antiguidade. Era um homem virado para o presente «aos faraós mumificados ele preferia lidar com os soldados vivos australianos» ( Emil Ludwig, La Vie Romanesque d’ Edouard, Duc de Windsor, Paris,1946, p.33). 
No dia da assinatura do armistício uma multidão ovacionou o casal real em frente a Buckingham Palace, e o povo pedia a presença do príncipe herdeiro, visto saberem que ele tinha, de algum modo, participado na Guerra. «We want the prince !», clamava a multidão e Eduardo apareceu à varanda e agradeceu a ovação.

Corre, como se sabe, nas veias da família real britânica sangue alemão (mais correctamente, prussiano), hoje temperado por sangue inglês. Sabemos que a Casa de Windsor era o nome da casa de Saxe-Coburgo-Ghota e que mudou o nome devido à posição da Alemanha na 1ª Grande Guerra. A dinastia de Hanôver manteve-se no trono inglês de 1714 a 1910. A própria rainha Victória sucedera no trono ao tio Guilherme IV, de sangue alemão. E se subirmos um pouco na ascendência da família real britânica ficamos a saber que vários reis (Jorge I, Jorge II, Jorge III foram eleitores de Hanôver, casados com princesas de diversos estados da Alemanha ainda alguns pertencentes à Prússia, com apelidos como Brandenburgo-Ansbach ou Mecklenburgo-Strelitz. Jorge IV casou com uma Brunswick. Os Wurttemberg eram ascendentes directos de Eduardo VIII e ele, ainda jovem, dava-se com os primos alemães. Mais do que uma vez esteve na Alemanha com o rei Guilherme II e Eduardo, desde cedo, notava as diferenças entre a vida oficial da corte alemã e inglesa, esta mais protocolar. Consta que sua tendência para a cultura e educação alemã terá, mais tarde, pesado fortemente no seu afastamento do trono. Esse assunto é uma longa história, que todos os dias é escrita, pois novos documentos se descobrem.

Como herdeiro, Eduardo, tinha de viver em Iorque-House, no centro de Londres e cumpria um rigoroso programa de viagens na qualidade de herdeiro. Em 1919 iniciou uma série de viagem pelo império britânico como embaixador do rei Jorge V. Esta viagem seria tudo menos uma viagem turística, como muitas vezes se pensa que são as viagens dos governantes. Esteve em todo o império, pronunciou e improvisou milhares de discursos, vestiu-se de gala e de modo menos convencional e terá apertado a mão a centenas de pessoas. Nesse tempo já havia máquinas fotográficas. e Eduardo comportava-se como um verdadeiro príncipe herdeiro. As notícias sobre ele eram diárias nos jornais da Grã-Bretanha, acompanhando a par e passo o menino bonito do país. Visitou o Canadá e quando chegou a Nova Iorque foi recebido em perfeito júbilo, pois, desde 1860 que não ia nenhum príncipe de Gales aquela antiga possessão inglesa. Eduardo comentaria mais tarde que detestava os papelinhos lançados das janelas com que os norte-americanos gostam de mimosear os convidados ilustres. Para eles ser um príncipe ou uma estrela de cinema era rigorosamente igual.
Nesta viagem Eduardo esteve também no Canadá tendo visitado as mais importantes cidades, e quis conhecer as tribos dos índios em Nibigon, e deixou-se fotografar tendo na cabeça um sumptuoso atributo de chefe. 
De regresso da viagem, em Dezembro de 1919, Eduardo, perante as mais altas individualidades do seu país pronunciou em Whitehall um discurso de meia hora, sem precisar de papel, o que constrangeu os mais conservadores. Não fez um discurso de circunstância. Abordou a sua visão do que era para ele o império britânico da época. Falou dos problemas sociais, do que se deveria fazer para melhorar as condições de vida das pessoas. Não esqueceu as crianças que à nascença deviam ter já boas oportunidades de acesso à saúde e educação, enfim... Palavras ditadas pela emoção e pela justiça social e não de circunstância. No dia seguinte os jornais e comentadores políticos escreviam: «O império tem um novo orador».
O herdeiro do trono fazia uma vida social normal para a sua idade e teve, como é óbvio, as suas namoradas. A primeira de quem se falou foi Lady Coke, tinha ele 21 anos e ela era muito mais nova; seguiu-se Lady Rosemary Leveson-Gower filha do duque de Sutherland. Com esta falou-se mesmo em casamento, mas ela acabaria por escolher o visconde de Edmon. 
Depois da 1ª Grande Guerra tinham proliferado por toda a Inglaterra os salões de baile. Toda a gente dançava. Eduardo também não escapava a este divertimento elegante. O salão mais bem frequentado, era o Embassy Club em Bond Street, frequentado por nobres, mas também por actores, escritores a bonitas senhoras requintadamente vestidas. Era tempo de diversão. Os loucos anos 20. 
Antes de surgir no horizonte a americana Wallis Simpson, Eduardo teve uma longa relação amorosa com Freda Dudley Ward, que era casada (mais tarde separou-se). Foi um romance prolongado e Eduardo apaixonou-se a sério por ela . Dudley tinha um enorme ascendente sobre o príncipe.
Não pudemos deixar de fazer algumas analogias com o caso do actual herdeiro do trono da Grã-Bretanha, esta atracção por uma mulher casada! 
Seguiu-se, em 1920, mais uma viagem oficial de meses: Austrália, Bermudas, Honolulu, Fidji e Nova Zelândia. Nesta viagem acompanhou-o o primo Lord Luís Mountbaten de quem era muito amigo. Eduardo escrevia pequenas notas de viagem e diria que o contacto com todos estes povos o enriqueceram a ponto de perceber que uma coisa é a vida palaciana coada pelas notícias dos políticos outra é a realidade palpável. Na Austrália, inaugurou uma nova cidade - Camberra - e deixou uma óptima impressão ao interessar-se pelas questões sociais. 
Em 1921 viajou para ao Japão e Índia. No Japão foi convidado pelo próprio imperador para o palácio imperial Na Índia atravessava-se um período difícil para a Inglaterra, com Gandhi a lutar para se libertar do jugo inglês, luta que manteve sem esmorecer durante cinquenta longos anos. Gandhi mandava queimar os tecidos ingleses para que o seu país tivesse indústria própria. Por outro lado muitos marajás cobriam-se de ouro e prata, montados em elefantes luxuosamente ajaezados querendo mostrar ao príncipe europeu o que era o verdadeiro “luxo asiático”. Eduardo chegou a ficar impressionado com as jóias que os elefantes luziam sobre peças de pano bordado a ouro. Em Lahore desfilaram perante o Príncipe de Gales 3 000 hindus cavalgando sobre soberbos cavalos. Era a Índia mítica que escondia uma realidade dramática. Só, em Agosto de 1947 a Índia passou a país independente. 
Nessa viagem, de oito meses, Eduardo percorreu quarenta e uma mil milhas de barco, comboios, automóveis e...elefantes! 
De 1922 a 1931 a vida deste Príncipe de Gales manteve-se sempre dentro do cumprimento estrito dos seus deveres de herdeiro do trono. É importante seguirmos a par e passo os sucessos daquele que foi rei com o título de Eduardo VIII, pois há vários autores que dizem que ele não tinha «queda» para ser rei e que a abdicação foi uma consequência disso. Não é verdade. Com 25 anos o príncipe herdeiro pensava e desejava ser rei. Não ao estilo do pai, mas sim um rei moderno, com uma visão mais alargada e democrática do mundo. A sociedade era outra. A época vitoriana que o pai prolongava estava completamente ultrapassada. Eduardo sempre cumpriu as ordens do pai. Em 1925 partiu para outra viagem. esta pela costa ocidental da África - Gâmbia, Serra Leoa, Costa do Ouro, Nigéria, até à Cidade do Cabo, na África do Sul. Aqui foi recebido por 190.000 pessoas. 
O rei Jorge V esteve muito doente em 1928 e o herdeiro do trono, nessa ocasião estava em África. O Príncipe herdeiro veio de avião ver o pai e este, olhando o filho, mesmo doente, os olhos brilharam e perguntou: «Mataste leões?». Como bom aristocrata inglês o rei achava que era importante o filho ter morto leões, o que não acontecera. Eduardo já não era do tempo das caçadas reais e tinha renunciado à caça grossa, desporto favorito de gerações de monarcas ingleses. Este pequeno episódio mostra bem como eram diferentes pai e filho. Diferentes no feitio e diferentes na mentalidade. Eduardo era um homem do séc. XX. Em vez de caçar filmou África e a sua fauna espantosa. 
Os ingleses mais conservadores apercebiam-se, nestes pequenos pormenores, que este príncipe não era, para eles, o rei ideal. Daí que, mais tarde, quando se procuravam soluções para o rei poder casar com uma divorciada, tudo foram entraves e dificuldades. Ninguém quis tornear a lei. Não tenho grandes dúvidas que se tivesse havido vontade política por parte da Igreja Anglicana, do Parlamento e do Primeiro-Ministro Baldwin, Eduardo VIII podia ter casado com Wallis Simpson e poderia ter sido rei.

O futuro rei Jorge VI nasceu, como o irmão, em Iorque Cottage a 14 de Dezembro de 1895. Teve uma educação semelhante à do herdeiro do trono. Representou o pai, em 1922, na coroação dos reis da Roménia. Da Marinha passou à RAF, sempre com problemas de saúde. Era tímido e melancólico. Estudou em prestigiados colégios e passou um ano em Cambridge, onde aprendeu história, economia política, sociologia e geografia. Foi um aluno aplicado. Diferente do irmão mais velho, visto gostar de passar horas a ler.
Ao contrário do que é usual, foi anunciado o casamento do segundo filho dos monarcas, antes do enlace do herdeiro. Alberto escolheu não uma princesa, mas uma escocesa nobre, que nascera num castelo da Escócia. O rei Jorge V e a rainha Maria deram o seu consentimento. Alberto conhecera a futura mulher, Isabel Bowes-Lyon, em Londres, quando esta tinha 20 anos. A noiva contava entre os antepassados Sir John Lyon que casara com Joana, filha do rei da Escócia, Roberto II. Mas os antepassados de Isabel pouco interessavam a Alberto, o que o terá atraído na jovem noiva era a sua segurança e personalidade, aliadas a um sorriso maravilhoso. Casaram em 23 de Abril de 1923, na Abadia de Westminster. Foi um casamento de amor que durou até à morte de Alberto, em 1951 (mais tarde rei com o título de Jorge VI). A rainha-mãe viveu mais de 100 anos. 
Este casamento fez levantar mais uma vez uma onda de interrogações sobre o casamento do herdeiro do trono. Estava a entrar nos trinta anos. Era mais que tempo de escolher esposa.

Apenas algumas notas sobre esta norte-americana, oriunda do Baltimore, duas vezes divorciada que entraria na vida de Eduardo, príncipe de Gales, e que faria mudar o rumo da vida deste herdeiro do trono da Grã Bretanha. 
Conheceram-se em 1931 «Aconteceu durante o Inverno que se seguiu ao meu regresso da viagem à América do Sul, em 1931», assim diz o duque de Windsor nas suas Memórias e também é essa a data apontada pela Srª Simpson no seu livro autobiográfico The Hert Has Its Reasons,( Nova Iorque, Crest Books, 1957). «Eu estava em Melton Mowbray, em Leicestershire, com o meu irmão Jorge, para onde fora à caça à raposa, durante um fim-de-semana. O casal Simpson tinha sido convidado e ficamos na mesma casa. Era um daqueles invernos ingleses, que fazem a sua reputação abominável e bem merecida: frio, humidade e nevoeiro. A Srª Simpson não montava a cavalo, nem se interessava por isso, nem por cães de caça, nem pela caça em geral». Em pólos opostos o que os terá aproximado? Mais tarde o casal Simpson foi convidado para uma recepção em Buckingham Palace. Quando começou o romance, não se sabe bem. Sabe-se sim que o casal Simpson passou a convidar Eduardo para o seu apartamento de Bryanston Square onde era recebido com extrema naturalidade e amizade. Nesse tempo Wallis parecia feliz com o seu segundo marido e nada faria prever o desenlace tanto daquele casamento como daquela amizade pelo herdeiro do trono.

Quando Jorge V morreu, em Janeiro de 1936, a rainha viúva, Maria, pegou na mão do filho mais velho, beijou-lha e se a frase habitual :«The King is dead. Long live the King». Nas exéquias do rei, pela primeira vez na história daquele país a guarda de honra, ao esquife real foi feita também pelos quatro filhos, por decisão de Eduardo VIII. 
Eduardo VIII subiu trono com a firme determinação de reformar e democratizar a monarquia, porém o seu envolvimento amoroso com Wallis Simpson fariam desses escassos meses de reinado um tempo de crise permanente. A Igreja Anglicana e o Primeiro Ministro Baldwin, que influenciou o Parlamento, tudo fizeram para que o rei tivesse que tomar a difícil atitude de abdicar do trono. 
Nos poucos actos públicos a que presidiu como rei introduziu inovações. Poderia ter sido um bom rei. A 3 de Novembro de 1936 cabia-lhe abrir a Sessão do Parlamento, e a tradição impunha que o rei se deslocasse de Buckingham Palace até Westminster numa carruagem de luxo puxada por oito cavalos, porém como chovia o rei decidiu, pura e simplesmente, fazer o trajecto num automóvel Daimler. No início de Dezembro vários bispos manifestaram-se por o rei tencionar secularizar a cerimónia da coroação. Os jornais ingleses não falavam muito dos problemas do casamento, mas no exterior, os jornais norte-americanos e franceses escreviam páginas e páginas sobre «O grande romance», «A história de amor do século».
Depois de esgotadas todas as hipóteses de Eduardo VIII casar com Wallis Simpson, depois do gabinete do Primeiro-Ministro informar o rei de que estava fora de questão o casamento morganático (o rei mantinha o título e atributos de rei, mas a esposa nunca poderia ser tratada por Sua Alteza Real) só havia uma solução - abdicar do trono. Eduardo avisou a mãe e os irmãos da sua decisão, enquanto a Srª Simpson partiu para o estrangeiro. 
Na noite do dia 10 para 11 de Dezembro de 1936, quando Eduardo, filho primogénito de Jorge V e de Maria de Teck, com quarenta e dois anos de idade, se dirigiu ao país, através da BBC numa voz pausada e contidamente emocionada, anunciou a sua decisão de abdicar. Os motivos que invocou são conhecidos. Não aceitava ser rei sem a companhia daquela de quem gostava. Ela era Wallis Simpson. 

Biografia de Isabel de Portugal


 Filha do rei D. Manuel I e da rainha D. Maria, sua segunda mulher, Isabel nasceu em Lisboa, no dia 25 de Outubro de 1503. Imperatriz perfeitíssima lhe chamaram mais tarde os cronistas espanhóis. Numa Europa repleta de grandes convulsões politicas, religiosas e sociais, ela soube ser a mulher e a colaboradora do poderoso Carlos V. A sua beleza não foi um mito - basta olhá-la, serena e majestosa, pintada por Ticiano. 
             As primeiras negociações sobre o enlace entre D. Isabel e o imperador Carlos V (hoje as revistas diriam "o casamento do século"!) começaram no Outono de 1522, entre D. João III, seu irmão, e a corte espanhola. Ficaram acordados dois casamentos, o de D. João III com Catarina, irmã de Carlos e o de Isabel de Portugal com o imperador. O rei português casou primeiro e os trâmites para o casamento de Isabel demoraram mais uns tempos. Nestas coisas de casamentos, não há nada como uma "fada madrinha", e a recém- rainha de Portugal escreveu ao irmão a falar-lhe das muitas virtudes e beleza de Isabel, sua cunhada. Na Primavera de 1525, veio a Portugal o embaixador espanhol para tratar dos dois esponsais, tendo as primeiras negociações sido firmadas em 17 de Outubro de 1525.Almeinim foi o local escolhido. E aqui foi também celebrada a cerimónia do casamento, por procuração, em 23 de Outubro de 1525. Presidiu à cerimónia o bispo de Lamego, D. Fernando de Vasconcelos. 
             A partir daquele dia, Isabel de Portugal era já imperatriz. Houve festas e bailes e foi representada, pela primeira vez, a comédia Dom Duardos, de Gil Vicente. O dote da imperatriz foi de 900 mil dobras de ouro castelhanas, o que era uma enorme fortuna. Em Janeiro de 1526, começaram os preparativos da partida da imperatriz Isabel de Portugal para Espanha. 
             Com 22 anos, D Isabel parte rumo a Badajoz com uma grande comitiva. A comodidade da época não ia além de uma liteira, sendo o destino Sevilha. De Toledo, onde Carlos V tinha a corte, veio "um luzido acompanhamento", para fazer as honras à futura imperatriz. Carlos V mandou três emissários da mais alta honorabilidade. D. Isabel chegou a Elvas no dia 6 de Janeiro, acompanhada dos irmãos, D Luís e D. Fernando. Ao chegarem à fronteira, deram-lhe por montada uma linda "faca" branca, termo que significa cavalo pequeno, leve e magro, para maior comodidade na viagem. 
             Entrou em Espanha no dia 7. A cerimónia de troca de séquito ocorreu na fronteira, perto do rio Caia. A lindíssima D. Isabel, serena e sem mostrar o mínimo cansaço, ouviu o irmão Luís dizer as palavras do protocolo ao duque de Calábria: "Senhor, entrego a Vossa Alteza a imperatriz minha Senhora, em nome do rei de Portugal, meu senhor e irmão, como esposa que é da cesárea majestade do imperador." No final, em vez do protocolar beija-mão, D. Isabel quis abraçar os seus irmãos. 
             A viagem demorou dois meses. No dia 10 ou 11 de Março de 1526, realizou -se o casamento com os noivos lado a lado, e a cidade de Sevilha engalanou as ruas e viveu dias de grande alegria. Quem esteve presente nas bodas dos imperadores observou os recém-casados e comentou: "(...) Entre os noivos há muito contentamento, pelo menos é o que parece (...), e quando estão juntos, embora esteja muita gente presente não reparam em mais ninguém, ambos falam e riem, e nunca outra coisa os distrai". Como alguém disse, Carlos e Isabel casaram sem se conhecer e amaram-se depois de se conhecerem. 
             Os noivos imperiais ficaram uns dias em Sevilha mas, para fugir ao calor, seguiram para Córdova, com destino a Granada, onde chegaram nos primeiros dias de Junho. Ficaram no Palácio do Alhambra, onde era notória a influência árabe. Os mouros de Granada ofereceram, como prenda de casamento a Carlos e Isabel, 80 mil ducados. 
             Carlos, atencioso e meigo, deu a Isabel, por divisa, "as três graças, tendo uma delas uma rosa, símbolo da sua formosura, um ramo de murta como símbolo do amor e a terceira uma coroa de carvalho simbolizando a fecundidade". D. Isabel, além de ter um rosto de um perfeito oval, "olhos de garça", cabelos longos e loiros, com uma figura "esbelta e harmoniosa", terá percebido na lua-de-mel que a sorte a bafejara. Os noivos ficaram no Palácio do Alhambra, mas as comitivas eram tão numerosas que os familiares do lado de D. Isabel ficaram hospedados em São Jerónimo, magnífico edifício renascentista. Depois da passagem de Carlos V por Granada (onde nunca estivera), o Palácio do Alhambra sofreu beneficiações. Nestes dias de felicidade, Carlos ofereceu um cravo a Isabel, flor que na altura não era muito vulgar. E diz-se que foi por este gesto que um dos símbolos da Andaluzia e de Espanha é o "clavel".
             Em Dezembro, os imperadores partiram para Valladolid, onde chegaram no início do ano seguinte. Aqui, a imperatriz deu à luz, no dia 21 de Maio de 1527, o herdeiro do trono - Filipe (depois rei Filipe II de Espanha, Filipe I de Portugal). Sabe-se que o parto foi difícil e Isabel de Portugal sofreu muito. Como rainha, quis mostrar-se corajosa quando as dores eram quase insuportáveis. Num momento de maior sofrimento, estampado no rosto, a parteira pediu-lhe que gritasse, porque ajudava a descontrair-se, mas a imperatriz respondeu em português: "Não me faleis tal, minha comadre, que eu morrerei, mas não gritarei." 
             Isabel de Portugal tinha residência própria, independente da do marido, onde viviam quarenta damas e açafatas e mais de setenta jovens, rapazes e raparigas, alguns filhos do pessoal que lidava de perto com D. Isabel. Além da morada do imperador, havia as casas dos infantes e infantas (quando já tinham idade para serem independentes), e ainda o palácio da rainha Joana, mãe de Carlos, que vivia em Tordesilhas. 
             Foram contemporâneos de Carlos V e de Isabel de Portugal, umas vezes inimigos e outras vezes aliados, Francisco I de França, Henrique VIII de Inglaterra - que na sua sucessão de esposas contou também com uma tia de Carlos V - Catarina de Aragão e o poderosíssimo Soleimão, o Magnífico, senhor do império otomano no seu período de apogeu. 
             Enquanto Carlos V estava em guerra ou a negociar tratados de paz com países ou regiões da Europa, Isabel tinha as responsabilidades de regente. O seu cargo era, como ficou escrito, "lugarteniente dcl reino de Castilla". Foi regente entre 1529 e 1532 centre 1535 e 1539. Nessa qualidade, viajou bastante. Para amenizar as saudades e para tratar de assuntos importantes do império, Carlos e Isabel escreviam-se com regularidade. Por vezes, o imperador não escrevia durante meses, a ponto de preocupar a imperatriz, que numa carta lhe "ralhou", dizendo que ao menos lhe escrevesse "todos os vinte dias". 
             Devido ao clima demasiado quente de Toledo e de Sevilha, a imperatriz Isabel passava os Verões em Ávila, por ser mais ameno, pois sofreu diversas vezes de paludismo. Viajava no Outono, com regularidade, entre Toledo, Valladolid, Sevilha, Barcelona e Maiorca. Quando tinha notícia de que o marido ia regressar, mandava preparar uma recepção, com grande comitiva, mas durante o tempo em que estava sozinha com os filhos, as damas e conselheiros da corte, Isabel de Portugal fazia uma vida muito ascética. 
             Em 1529, nasceu a filha Maria e, mais uma vez, foi um parto doloroso e complicado. Durante os 16 anos de casamento, Carlos não procurou outra mulher, mesmo nos períodos de ausência de casa. Isabel de Portugal foi novamente mãe, em 1535. Esta filha, Joana, viria a casar com o príncipe João Manuel, filho de D. João III de Portugal e de D. Catarina. Ficou viúva e à espera de um filho, que viria a ser o malogrado rei D. Sebastião, morto em Alcácer-Quibir. 
             Quando Isabel de Portugal morreu de pós-parto, em 1539, o imperador estava ausente em Madrid e ficou muitíssimo amargurado. Refugiou-se no Mosteiro de Sisla, vestido de negro, cor que usou até ao fim dos seus dias. Rezava. E frequentemente os seus vassalos lhe viram lágrimas nos olhos. Temeu-se pela sua saúde, tal era o seu sofrimento pela ausência de Isabel. Para ter perto de si a imagem daquela que ele tanto amara, encomendou um retrato a Ticiano. Era costume fazerem-se as máscaras mortuárias dos falecidos ilustres e terá sido a partir dessa máscara de cera com as feições da imperatriz que Ticiano concebeu o retrato. Quando o imperador o viu, não o achou perfeito e quis que o mestre pintor retocasse o nariz de Isabel. E assim fez Ticiano. Aliás, pintou dois quadros quase iguais. Um desapareceu, anos mais tarde, num incêndio. Resta apenas aquele que acompanhou Carlos V quando se retirou para o Mosteiro deYuste, em 1556, e que esteve na grande exposição de Toledo, de Outubro de 2000 a Janeiro de 2001. 
             A vida de Francisco de Borja está indissoluvelmente marcada pela de Isabel de Portugal, porque este fidalgo viria a protagonizar uma história verídica, devido à morte da imperatriz. 
             Francisco de Borja serviu na corte de Carlos V, onde conheceu a sua futura mulher, dama que foi no séquito de Isabel de Portugal. Deste casamento, nasceram li filhos, tendo sobrevivido oito. Em Maio de 1539, quando morreu Isabel de Portugal, o imperador pediu-lhe que tratasse das exéquias. A imperatriz morreu em Toledo, mas foi a enterrar em Granada. Acompanhou-a também o filho Filipe, que estivera sempre muito próximo da mãe. Entre a morte e o dia "da tumulação", mediaram 16 dias. O calor era tal que, quando Francisco de Borja viu, ao abrirem a tampa do caixão, a face daquela que fora a mulher mais bela do seu tempo, completamente irreconhecível, ficou tão impressionado que terá dato que, a partir daquela data, não mais ser viria nenhum senhor na Terra. Iria dedicar-se, de alma e coração ao serviço de Deus. Ficou viúvo em 1546 e entrou para a Companhia de Jesus, tendo feito votos solenes em Fevereiro de 1548. Foi ordenado sacerdote em 1551 e viria a ser impulsionador da cristianização das colónias espanholas e do Brasil. Foi canonizado em Abril de 1671. 
             Isabel de Portugal, por desejo do filho Filipe, seria trasladada, em 1574, para o Mosteiro do Escorial, 
             Depois da morte de Isabel, Carlos V passou mais tempo isolado. Deixou pouco a pouco os negócios políticos e abdicou, em 1556, a favor do seu filho Filipe, que subiu ao trono como Filipe II de Espanha, enquanto que o seu irmão Fernando lhe sucedeu como imperador da Alemanha. 
             Nos seus tempos de juventude, Carlos teve uma filha, fruto dos amores por uma flamenga, Margarida Van der Gheist. Esta filha casará com um Médicis e depois, já viúva, com o duque de Parma. Já viúvo de Isabel de Portugal, aos quarenta e cinco anos, o imperador Carlos V teve uma relação amorosa com uma jovem, que lhe deu um filho - , João de Áustria. No recolhimento de Yuste, Carlos V não se afastou completamente da vida política, mas levou uma vida simples. Olhando para o retrato de Isabel, terá então recordado os anos de felicidade com a imperatriz perfeitíssima. 
             Carlos V da Alemanha, Carlos I de Espanha morreu a 21 de Setembro de 1558. Isabel e Carlos estiveram algum tempo separados, também na morte. Mas depois passaram a repousar lado a lado, no Mosteiro de São Lourenço do Escorial, panteão dos monarcas espanhóis, mandado construir por Filipe II. 

A autora agradece a Maria do Carmo Holbeche Beirão Cortez a sua colaboração.

Biografia retirada daqui

Fontes:
Manuel Rios Mazcarelle, Dicionario de los Reys de Espanha, 1996.
Carlos Fisas, Historias de las Reinas de Espacia - la Casa de Áustria, 18ª edição, Madrid, Planeta, 1997.
Manuel Fernadez Álvarez, Carlos V el rey de los Encomenderos Americanos, Madrid, Anaya, 1988.
Joseph Pérez, Carlos V, Ediciones Temas de Hoy, 1999.
Francisco Câncio, Portugal Histórico e Monumental, 1934, vol. 2.

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