sábado, 30 de março de 2019

Neomanuelino ou o revivalismo português do século XIX


A arquitetura do reinado de D. Manuel I voltou a estar na moda quase quatrocentos anos depois. Portugal atravessava uma grave crise financeira, precisava de se afirmar enquanto império. E o Manuelino, além de ser um estilo inteiramente português, lembrava à Europa que esta era a pátria das gloriosas descobertas marítimas.
No século XIX a cultura resistia ao progresso que a revolução industrial imprimia por toda a Europa. A nostalgia estava em voga e o movimento do romantismo fazia ressuscitar estilos de épocas passadas, de preferência os que sublinhassem a originalidade arquitetónica de cada país.

Foi neste período que o manuelino das construções quinhentistas passou a ser considerado um estilo, com elementos comuns definidos por Francisco Adolfo Varnhagen na obra “Notícia Histórica e Descritiva do Mosteiro de Belém”, de 1842. Embora muitos críticos e historiadores de arte não identificassem traços manuelinos no que mantinham ser uma ramificação do gótico final português, a expressão foi adotada, tendo muitos intelectuais como Alexandre Herculano e Almeida Garrett a defendê-la.

Quando os revivalismos românticos chegaram a Portugal, o país precisava de encontrar o seu papel no tabuleiro político europeu para se afirmar enquanto nação soberana e autónoma. A bancarrota ameaçava ser o epílogo do século mais conturbado da história portuguesa. Como subsistir a 100 anos de lutas, invasões, conflitos diplomáticos, a uma produtividade baixa e a um sentimento de inferioridade crescente? O que distinguia o pequeno reino da periferia geográfica da Europa?

A resposta estava no passado das épicas viagens marítimas, um período glorioso a nível político, económico e cultural que a linguagem arquitetónica do Venturoso rei da pimenta, com a sua decoração exuberante, excessiva e exótica, fazia reviver. Este novo manuelino oitocentista que entrava na estética dos edifícios públicos e privados, restaurava valores nacionalistas na fase perigosa do Ultimato inglês  e reafirmava a imagem de Portugal no exterior.

Uma peça fascinante da arquitetura revivalista portuguesa é o Palácio-Hotel do Buçaco, obra iniciada em 1888, com projeto do arquiteto italiano Luigi Manini, forte  impulsionador do estilo e cenógrafo brilhante do Teatro S. Carlos. Neste cenário grandioso, montado no centro do país para receber sobretudo turistas estrangeiros, a historiadora de arte Raquel Henriques da Silva define e contextualiza a “moda do manuelino”.

Românico tardio na Igreja do Mosteiro de S. Salvador


Em estilo Românico ergue-se em Paço de Sousa o templo medieval que pertenceu aos monges beneditinos. A Igreja de três naves construída no século XIII, tem a robustez característica desta arquitetura mas apresenta já elementos góticos. A começar na escala.
A arquitetura religiosa românica foi uma tradição que em Portugal se manifestou tarde e, por isso, prolongada até ao século XIV. Enquanto a Europa há muito despertara para a monumentalidade das catedrais góticas, as construções no norte e centro do país, continuavam, na sua maioria, a ser pequenas, robustas, austeras e sombrias.

Mosteiros e igrejas não eram tão só locais de recolhimento, eram peças fundamentais na organização e defesa do território conquistado aos mouros, para formar povoados agrícolas ou repovoar terras abandonadas. As ordens religiosas foram, aliás, as grandes responsáveis pela difusão desta arte que, desde o século X, influenciava o ocidente.

Os novos templos tinham uma estrutura de base românica, mas a sua escala e riqueza decorativa dependiam das técnicas e materiais locais, das dádivas e dos patronos. Enquanto nos centros urbanos as encomendas ambicionavam seguir o exemplo dos grandes monumentos estrangeiros, com arquitetos e artífices famosos contratados; no mundo rural as construções caracterizavam-se pela simplicidade e proximidade ao imaginário popular, dando origem ao chamado românico português ou «nacionalizado».

No património medieval conta-se esta Igreja do Mosteiro de S. Salvador, mandada construir pela Ordem Beneditina num tempo em que o românico começava a ceder à linguagem artística que irradiava de França desde o século XII. O portal gótico de cinco arquivoltas, a rosácea de anéis encadeados apoiada em cachorrada esculpida, a questão da escala e a rudeza da pedra, são pormenores aqui explicados por Carla Varela Fernandes, Historiadora de Arte e Investigadora da Fundação para a Ciência e Tecnologia.

Arquitetura romântica no Palácio de Monserrate


A cúpula avermelhada do Palácio de Monserrate sobressai no luxuriante manto verde da serra. Extraordinário exemplar da arquitetura romântica, este exótico palácio é uma mistura de estilos. Aqui falamos deste monumento, um dos mais icónicos do concelho de Sintra.
Sobre as ruínas de um antigo palácio, dois ingleses imaginaram e construíram uma das mais belas peças do romantismo em Portugal. Francis Cook, o novo proprietário, comerciante abastado de grande «sensibilidade cultural», e James Knowles, arquiteto de imaginação exuberante, deram forma ao edifício que sintetiza na perfeição a essência do movimento que nasceu na Europa, no século XVIII, o Palácio de Monserrate.

Para a arquitetura, a corrente dos românticos queria emoções em vez de geometria, arte genuína sem os artifícios das regras académicas. Procuravam-se experiências novas e intensas para substituir o neoclassicismo, um estilo que fosse capaz de surpreender a cada olhar. Por isso inspiraram-se no passado, recuperaram estéticas esquecidas, como o gótico e o renascentista barroco, juntaram-lhes o gosto pelos exotismos de outras culturas e o pitoresco dos regionalismos, e criaram o cenário eclético que caracteriza o romantismo.

Estes revivalismos fortaleceram sentimentos nacionalistas: cada país procurava a sua linguagem própria e recriava o que de melhor tinha feito no passado. Os ingleses reinventaram as linhas arquitetónicas da Idade Média num novo gótico que acabaria por influenciar os países à volta. Por cá, seguindo esta lógica, as atenções penderam sobretudo para o neomanuelino, revivente da época de ouro da história portuguesa.

Em Monserrate, estilos tão diferentes como o gótico medieval, o árabe, o mourisco e o renascentista misturam-se tranquilamente e de forma surpreendente. Magnífico exemplar do romantismo, o Palácio integra «a paisagem natural de Sintra», classificada desde 1995 como património mundial da UNESCO. Vamos conhecê-lo melhor nas palavras de Maria João Baptista Neto, professora de História de Arte da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Recursos de Artes


O portal RTP Ensina não tem fórmulas matemáticas para garantir o sucesso escolar, mas faculta ferramentas que apoiam e complementam o estudo dos alunos e o trabalho dos professores. Aqui estão reunidos artigos que ajudam na compreensão das várias disciplinas relacionadas com Artes Plásticas e História da Cultura e das Artes.

Dispondo de um acervo único que resulta de oitenta anos de produção de programas de televisão e de rádio, a RTP oferece às escolas a possibilidade de consultarem séries documentais, entrevistas únicas e pequenas rubricas específicas sobre Cultura e História das Artes.

Para melhor consultar estas matérias basta escolher o tema na lista abaixo. Alternativamente pode sempre utilizar a caixa de pesquisa livre no topo da nossa página, à direita.


Apocalipse do Lorvão, manuscrito iluminado medieval


Do "scriptorium" do Mosteiro do Lorvão saiu em 1189 este manuscrito, talvez a primeira obra-prima da arte portuguesa. Mais de oitocentos anos depois, o "Apocalipse do Lorvão" foi considerado pela UNESCO um dos mais belos documentos da civilização medieval ocidental. Uma valiosa raridade que marca a arte românica e a história da iluminura em Portugal. 

Fundado num lugar ermo, o Mosteiro do Lorvão  era, no século XII, famoso pela sua biblioteca e pela produção de obras minuciosamente executadas na sua oficina ou scriptorium. Mas de tudo o que até aí fora realizado pela pequena comunidade de monges copistas, três manuscritos destacavam-se pela beleza das iluminuras e pela força da mensagem religiosa: “O Comentário de Santo Agostinho aos Peixes”, “O Livro das Aves” e este “Apocalipse do Lorvão”, texto bíblico atribuído a João Evangelista e que em 2015 foi inscrito no registo de Memória do Mundo pela UNESCO.

Se a leitura em gótico primitivo é inacessível ao comum dos mortais, as fantásticas imagens que decoram as páginas em pergaminho têm em si a simbologia e a força para nos prenderem à mensagem do último livro do Novo Testamento. Figuras humanas, animais e outros elementos decorativos, geométricos e abstratos, misturam-se em cenas narrativas que clarificam o que ali vem escrito. Como foi já dito, o valor deste códice “está principalmente nas suas bárbaras iluminuras, onde se encontram muitos espécimes autênticos de trajos, alfaias, arquitetura do século XII, raros em Portugal”.

Depositado no arquivo nacional da Torre do Tombo por iniciativa do historiador Alexandre Herculano, o “Apocalipse do Lorvão” marca, com as suas pinturas, a arte românica portuguesa. Algumas dessas raras ilustrações são mostradas e explicadas neste vídeo por Maria Adelaide Miranda, a especialista portuguesa em iluminura.

Projeto "Entre Nós", ponte entre Paris e Lisboa


Cruzar diferentes linguagens, perspectivas e pessoas, comparando uma rua de Lisboa com uma rua de Paris é a proposta de Pauliana Pimentel e Heléne Veiga Gomes, tendo a criatividade artística como pano de fundo.
Pauliana é uma fotógrafa dedicada às questões sociais. Heléne, antropóloga a acabar uma tese de doutoramento sobre a transformação do Intendente. Conheceram-se numa residência de artistas neste bairro lisboeta e abraçaram a ideia de estabelecer pontes entre as diferenças e semelhanças partilhadas pelas ruas do Benformoso em Lisboa e rue Myrha, em Paris, ambas em transformação.

Querem descobrir a maneira de vida das pessoas, a sua intimidade e a forma como convivem bairristas tradicionais e artistas que se instalaram nestas ruas.

Nesta reportagem, a jornalista Ana Rita Freitas também entrevistou alguns artistas como Marta Silva, mentora do Largo – Residências Artísticas, o músico Carlos Barreto e o escritor Javier Betemps.

A vida nos mosteiros e a produção de manuscritos medievais


Na solidão dos mosteiros procuravam os monges ficar mais perto de Deus. Mas estas casas religiosas acabaram por ter uma ação civilizadora no ocidente. Entre o trabalho espiritual e manual, as comunidades monacais tiveram um papel valioso no repovoamento, na transmissão da fé e de um legado cultural e artístico, como a produção de manuscritos. Vejamos o que se passava no Mosteiro do Lorvão. 
Desde o nascer ao pôr do sol, a vida interna dos mosteiros era ritmada pelo relógio das horas canónicas. Depois de louvar a Deus com cânticos e orações, os monges dedicavam-se a tarefas mais terrenas. O trabalho no campo e nas variadas oficinas era igualmente rigoroso, com regras e cargos definidos e distribuídos por todos.

Na comunidade do Lorvão, anterior à fundação do reino de Portugal, um grupo especializado na arte da iluminura produziu manuscritos de rara beleza que ao mosteiro trouxeram enorme prestígio cultural, como é exemplar o texto bíblico do Apocalipse, cujas ilustrações são consideradas os primeiros vestígios da pintura românica em Portugal.

Estas pinturas, que podiam ocupar uma página inteira ou cingir-se às letras iniciais de capítulos ou parágrafos, revelavam não só perícia técnica como uma extraordinária criatividade traduzida nas figuras e temas representados. Os textos eram copiados em tinta preta, para as ilustrações e outros ornamentos usava-se uma mistura de pigmentos, feita também no escritório.

No entanto a produção dos manuscritos necessitava de todo um trabalho prévio que acabava por envolver os poucos religiosos que residiam neste mosteiro fundado no século IX: era preciso cuidar dos rebanhos, tratar a pele dos animais, cortar o pergaminho, ajustá-lo ao tamanho do livro, coser e pautar as páginas. E, por fim, viria a encadernação do valioso objeto.

Não tivesse sido o labor intenso destes e de outros monges escribas e copistas, muitas obras antigas teriam ficado para sempre perdidas no tempo. Livros religiosos e profanos eram copiados, comentados e iluminados cuidadosamente nos “scriptorium” medievais, muitos deles encomendados e destinados a uma elite erudita, outros guardados na biblioteca do mosteiro.

Porque todo este trabalho era encarado como um serviço a Deus, vital para “reproduzir a palavra divina” e perpetuar os valores da Igreja, estes monges mantinham-se discretamente sob anonimato. São estas histórias que nos conta aqui Maria Adelaide Miranda, especialista portuguesa em iluminura.

Barroco Joanino no altar da Igreja de S. Domingos


Fundada no século XIII, esta imponente Igreja da cidade de Lisboa foi palco de casamentos reais, de conspirações e de terríveis tragédias humanas. Aqui teve início o massacre dos judeus e daqui saíam para os autos, os réus do Santo Ofício. Vamos conhecer o que resta desta obra exemplar do barroco joanino ou, como também se diz, do "barroco de racionalidade". 
Poucos anos antes do grande terramoto, D. João V mandara construir um altar que projectava de forma majestática toda a encenação litúrgica. Este altar é a “evidência do barroco joanino”, diz o historiador António Camões Gouveia no início desta visita guiada à Igreja de São Domingos, em Lisboa.

O nome do rei, considerado o maior mecenas da Europa setecentista, fixou associado ao estilo que, embora seguindo o espírito do barroco, apresenta ligeiras modificações na sua representação. Será uma vez mais João Frederico Ludovice, o arquiteto de D. João V e autor do grandioso Convento de Mafra, a interpretar a visão estética do monarca e a executar o altar que engrandece a fé e a monarquia.


A Charola do Convento de Cristo


Datada do século XII, esta Igreja redonda foi o primeiro oratório românico dos Templários na cidade de Tomar. A célebre Charola tem arquitetura inspirada nos Templos de Jerusalém, com planta centrada, em formato octogonal. Porque aqui, longe dos lugares da Terra Santa que defenderam à espada, os cavaleiros continuavam a ser fiéis servidores de Cristo. O monumento é um dos mais originais e emblemáticos da ordem fundada em 1118.
Da época de Gualdim Paes, mestre da Ordem  dos Templários em Portugal, são o castelo de Tomar e a Charola, primitiva igreja construída “em memória da morte e ressurreição de Jesus Cristo”. O santuário com espaço litúrgico em forma octogonal «que define um amplo deambulatório», por onde os monges-cavaleiros andavam à volta em oração, terá a sua arquitetura inspirada em dois edifícios míticos de Jerusalém: a Igreja do Santo Sepulcro e a Mesquita da Cúpula do Rochedo, sublinha Paulo Pereira, autor de referência em História da Arte, neste extrato do programa Visita Guiada.

Mas à românica Igreja Templária do século XII foram sendo acrescentadas outras construções e decorações por iniciativa de infantes e reis. Com D. Manuel I, por exemplo, o santuário é engrandecido em esculturas, pinturas e talha dourada. Os dois mil metros da Charola vão ganhando a exuberância de outros estilos – gótico, manuelino, renascimento maneirismo -,  como acontece com todo o Convento de Cristo, monumento único, classificado como Património Mundial pela UNESCO, em 1983.

Manuel Cargaleiro, uma vida dedicada à arte da olaria


É um desenhador e pintor conceituado, mas foi a forma como trabalhou a cerâmica que lançaram o seu nome no mundo artístico. Manuel Cargaleiro é reconhecido dentro e fora do país continuando empenhando em projetos numa altura em que chegou aos 90 anos.
Nasceu em 1927 e foi na infância que descobriu a arte da cerâmica numa olaria próximo de casa. Foi no princípio dos anos 50 que começou a participar em mostras e exposições em Portugal. É ainda nesta década que recebe os primeiros prémios artísticos.

Estudou posteriormente em Itália e França, tendo fixado residência neste último país. Ao longo da sua vida participou em inúmeras exposições coletivas por todo o mundo e, individualmente, o seu trabalho foi mostrados em cidades como Genebra, Milão, Lausanne, Paris, Brasília, Lisboa, Portalegre ou Reims.

Para além da cerâmica, do desenho e da pintura, Cargaleiro também se dedicou, no final do século XX, à  tapeçaria. O artista também desenvolveu uma ligação especial à cidade italiana de  Vietri Sul Mare, atualmente sede da Fondazione Museo Artistico Industriale Manuel Cargaleiro.

O surgimento do Zé Povinho


O jornal satírico “Lanterna Mágica” publicou, a 12 de junho de 1875,  uma caricatura alusiva ao Santo António, que se celebra no dia seguinte, 13 de junho. No desenho está representado um peditório para o santo, com um altar e um rapaz que pede dinheiro a quem passa: só que o rapaz tem a cara de António Serpa Pimentel, ministro das Finanças, e o Santo António é, na verdade, Fontes Pereira de Melo, o chefe do governo, que tem ao colo um menino com a cara do rei D. Luís.
Sentado ao lado, com ar severo e de chicote, está o comandante da guarda municipal. Quanto à pessoa que passa e é abordada para dar dinheiro, é um personagem de barba, que coça a cabeça com ar desconcertado enquanto paga. Escrito nas suas calças pode ler-se “Seu Zé Povinho”. Nascia assim uma figura emblemática do imaginário nacional, uma espécie de símbolo do povo português, com uma das suas marcas características: o pagamento de impostos, o peso fiscal, a espoliação por parte dos políticos. Foi a criação mais importante de Rafael Bordalo Pinheiro, cujo nome ficou para sempre associado a esta figura.

Quem era Rafael Bordalo Pinheiro?
Bordalo foi o mais célebre artista plástico, caricaturista e ilustrador português do século XIX. Ao contrário do Zé Povinho, Bordalo não tinha nada de rústico: provinha de uma família da burguesia lisboeta e nasceu e morreu na capital. Bordalo Pinheiro estudou no Conservatório, na escola de Belas Artes, em Letras e na escola de Arte Dramática, mas foi a sua atividade como jornalista e caricaturista que o tornou célebre. Produziu uma grande quantidade de desenhos, litografias e ilustrações, que foram publicadas em diversas revistas e jornais, tanto em Portugal como no estrangeiro.

Fundou e dirigiu publicações satíricas, nomeadamente o periódico O António Maria, que consagrou definitivamente a figura do Zé Povinho. “António Maria” refere-se aos dois primeiros nomes da figura política mais importante daquela época, António Maria Fontes Pereira de Melo. Paralelamente, Rafael Bordalo Pinheiro desenvolveu uma importante atividade como ceramista na fábrica de faianças das Caldas da Rainha, onde criou um estilo próprio que subsiste ainda hoje. Uma parte substancial da sua obra encontra-se reunida no museu com o seu nome, em Lisboa.

Qual o motivo do sucesso da figura do Zé Povinho?
O Zé Povinho teve sucesso imediato e rapidamente ultrapassou a figura de Bordalo. Foi imediatamente adotado por outros caricaturistas e ilustradores, que reconheceram o seu potencial criativo: é a figura do homem comum eternamente explorado e enganado pelos políticos. Mais tarde, e já depois da morte de Bordalo Pinheiro, o Zé Povinho foi utilizado como símbolo republicano, numa altura em que a República emergia como uma esperança para a saída da profunda crise em que o país estava mergulhado.

Mas após a proclamação da República, em 1910, o Zé foi novamente usado como expressão do desalento e da desilusão, quando a opinião pública se apercebeu que o novo regime tinha os mesmos defeitos do anterior, nomeadamente no que dizia respeito à instabilidade política, ao aumento do custo de vida e da carga fiscal. A censura que vigorou durante o Estado Novo limitou drasticamente a tradição satírica e crítica da imprensa portuguesa, mas não evitou que o Zé Povinho se tornasse um ícone importante no imaginário popular.

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